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Nem heróis nem sacerdotes, somos médicos

  • Dr. Gutemberg
  • 25/10/2021
  • 07:38

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hospital do gama guttemberg fialho sindicato dos médicos df
Hospital Regional do Gama. Foto: Sindimédicos-DF

No dia 18, comemoramos o Dia do Médico, data em que enaltecemos a dedicação, a abnegação, o comprometimento e o empenho desses profissionais no que há de mais caro a todos nós: a defesa da vida. Especialmente nestes tempos de pandemia, médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem e outros profissionais de saúde foram chamados de heróis. 

Indice
Hospital Regional do GamaNão somos heróis Resultado

Isoladas em suas casas nos momentos de maior restrição, pessoas ao redor do mundo foram para as janelas aplaudi-los. Governantes de todo o planeta cobriram de elogios os médicos e demais profissionais de saúde. No Brasil e aqui no Distrito Federal, esse reconhecimento ficou em discurso. Nem ao menos o pagamento do adicional de insalubridade em grau máximo pela exposição à contaminação pelo coronavírus saiu do papel.

Hospital Regional do Gama

Dois dias após o Dia do Médico, fui ao Hospital Regional do Gama. Na verdade, foi um retorno, pouco mais de dois meses depois de uma vistoria após a qual me vi obrigado a solicitar ao Conselho Regional de Medicina que fizesse a interdição ética no atendimento da clínica médica daquela unidade de saúde. A suspensão da prestação de assistência à saúde da população é uma medida extrema e a última coisa que queremos ver acontecer, em especial sendo médicos.

Na sala vermelha da emergência do HRG, encontrei a colega de plantão, responsável pelos pacientes que se apinhavam no ambiente onde era até difícil transitar. Oito leitos estavam ocupados. Tinha até uma criança de colo (o local é para atendimento a adultos) que sofrera uma convulsão. Mesmo não sendo pediatra, ela estabilizou a criança para que pudesse ser removida para a pediatria do Hospital de Santa Maria. Ela não deixaria o bebê e a mãe sem socorro.

Não somos heróis

Na parede, próximo da cabeça da colega, havia uma plaquinha com a frase “não somos heróis”. De fato, a função do médico e dos demais profissionais de saúde não é ser herói, tampouco sacerdote ou milagreiro. A prática da medicina é uma atividade profissional baseada em ciência, técnica e evidências.

Mas a realidade que cerca o médico que trabalha no serviço público, e aquela médica, especificamente, é de falta de estrutura física e equipamentos adequados, de medicamentos, de exames e de apoio institucional para executar seu trabalho da forma como deveria e que todo médico almeja: o que chamamos “estado da arte”, ou seja, quando dominamos a técnica e temos os meios para dar ao paciente o melhor tratamento que podemos.

O problema no Hospital do Gama que motivou o pedido de interdição ética é a falta de médicos, clínicos e emergencistas, para minimamente preencher as escalas em todos os turnos de trabalho. Por isso, pacientes internados ficam um, dois ou mais dias sem serem vistos por médicos, sem ter verificada a prescrição médica, os pedidos de exames necessários para serem encaminhados para cirurgia ou até para receberem alta. 

Resultado

O resultado disso é desastroso: desde aumento de custos para o Sistema Único de Saúde até o aumento do risco de óbitos. Mortes evitáveis ocorrem por causa disso e, de diversas formas, isso recai sobre os médicos e demais profissionais – por implicações éticas, administrativas e legais, mas também emocionais e psicológicas, no nível pessoal. Não ter a condição de dar a assistência adequada e merecida ao paciente é um martírio para nós.

E o exercício profissional de ninguém deve ser assim. Enquanto médico, humanista, cidadão e sindicalista, minha luta é para mudar essa realidade, para que o médico e demais profissionais da saúde tenham os meios para realizar seu potencial, sua missão e a plenitude do prazer de exercer sua atividade, que é curar, cuidar, evitar ou mitigar a dor dos pacientes.

O que esperamos do Poder Público, que administra os recursos da sociedade para a prestação de assistência à saúde, é que nos dê os meios para realizar, o nosso trabalho. Não nos chamem de heróis, não nos cobrem o sacerdócio nem nos exijam milagres. Só nos dêem os meios para fazer o nosso trabalho da melhor forma possível.

Leia mais no Brasília Capital

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasília Capital

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