Ana Mendonça
Ao voltar de Goiânia para Brasília, no dia 3 de dezembro, o engenheiro Washington Dantas, de 61 anos, sofreu um acidente na BR-060 porque, segundo ele, houve uma falha mecânica grave no sistema de freios da camionete Ford Ranger V6, ano/modelo 2025, da qual é dono. Avaliado em torno de R$ 350 mil, o veículo colidiu contra a lanchonete Jerivá, ponto conhecido por quem trafega pelo trecho, nas proximidades de Abadiânia (GO).
O acidente ocorreu por volta das 21h40, quando o motorista tentava acessar o estabelecimento, que fica às margens da rodovia. Segundo Washington, ao acionar o pedal do freio, o carro não reagiu como deveria. “Eu pisei no freio, o freio ficou duro, não foi mais. É uma impotência, parece que tem uma carreta te empurrando”, relata. Apesar do susto, ele e um amigo que estava no banco do carona não ficaram feridos.
Ao perceber que não conseguiria parar totalmente a Ranger, o condutor teve raciocínio rápido e impediu que ocorresse uma tragédia. “Logo à frente, havia uma mulher e uma criança paradas, com o capô de outro carro aberto. Para não atropelá-las, Washington optou por desviar bruscamente e colidir contra a estrutura metálica de sustentação da lanchonete. “Preferi entrar nas grades mesmo para evitar o pior”, lembra ele, ao mencionar que estava, no máximo, a 40 km/h naquele momento.
Os danos, conforme mostram as fotos abaixo, foram significativos, inclusive nas rodas. “O que me chamou a atenção foi que nenhum airbag foi acionado”. Washington se refere ao dispositivo de segurança passiva veicular que infla rapidamente (em milissegundos) em caso de colisão, formando uma “bolsa de ar” acolchoada para proteger os ocupantes de impactos com o interior do carro, como volante ou painel.
Foto: Arquivo Pessoal
Após a batida, o automóvel apresentou falha elétrica total. “O carro apagou tudo (sic), não ligou mais de jeito nenhum”, afirmou. A ocorrência foi registrada no local e também em uma Delegacia de Polícia. Durante a madrugada, a caminhonete foi guinchada rumo a Brasília.
Revisão em dia
Até então, o engenheiro ressalta que a Ford Ranger nunca havia apresentado problemas mecânicos, e diz que fez uma revisão de 16 mil quilômetros cerca de dois meses antes do ocorrido, em 31 de outubro, na concessionária autorizada Slaviero, no SIA (veja a nota fiscal e documentação abaixo).
Washington, na posse de todos os documentos, ainda no dia 3 de dezembro, entrou em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da Ford. Recebeu orientação de uma atendente, que se identificou como Priscilla, de que o veículo deveria ser encaminhado à concessionária Brasal. O guincho chegou na manhã seguinte, em 4 de dezembro, mas, segundo o proprietário, a unidade se recusou a recebê-lo, sob a alegação de que não realizava aquele tipo de atendimento.
No segundo contato com o SAC da montadora, outra atendente indicou transportar a camionete à concessionária Slaviero, no SIA, e informou que a Ford entraria em contato para dar continuidade na avaliação técnica. Fato que só ocorreu no dia 8 de dezembro, data em que um funcionário identificado como Marcos entrou em contato via WhatsApp. O local de onde a perícia seria feita, contudo, continuou um mistério.
Em 9 de dezembro, diante da falta de respostas objetivas, Washington voltou a procurar a central de atendimento da Ford. “Foram diversas tentativas frustradas de contato, respostas vagas e, em ao menos duas ocasiões, ligações encerradas sem conclusão”. Passado um mês, a Ranger segue prostrada na concessionária Slaviero do SIA, sem qualquer solução ou satisfação por parte da empresa sediada nos Estados Unidos.
Histórico de falhas e recall
O caso ocorre em meio a uma série de relatos e reclamações de falhas no sistema de freios da Ford Ranger 2025, inclusive nas versões V6. Em 2025, a montadora anunciou um recall global destinado a mais de 312 mil veículos, abrangendo 20,5 mil unidades do mesmo modelo do de Washington que teriam apresentado defeito no Electronic Brake Booster, sistema que usa um motor elétrico para auxiliar a frenagem.
A falha pode provocar perda da assistência de frenagem, endurecimento do pedal e aumento da distância de parada, além de alertas no painel, de acordo com informações da própria Ford e de documentos emitidos por órgãos reguladores. Dados associados ao recall nos Estados Unidos apontam ao menos 37 reclamações formais de garantia e o registro de um acidente antes da correção por meio de atualização de software.
No Brasil, levantamento em plataformas públicas de defesa do consumidor indica pelo menos cinco queixas específicas relacionadas a falhas de freio na Ford Ranger 2025. São relatados no site Reclame Aqui, por exemplo, falhas recorrentes no sistema ABS, travamento de pinças de freio, mensagens de erro no freio eletrônico, endurecimento do pedal e demora no atendimento em razão da falta de peças.
Perda de confiança
Washington complementa que só tomou conhecimento desse histórico de problemas mecânicos citados na internet após o acidente. Embora o chassi de seu veículo não conste oficialmente em listas de recall no Brasil, ele espera que a Ford faça uma análise pericial séria e transparente.
Abalado, o engenheiro diz ter perdido a confiança na marca. “O carro é super moderno, só falta falar com você, é bem verdade. Mas imagina se isso acontece numa descida ou numa curva, talvez eu não estivesse aqui pra contar”, conclui.
A reportagem entrou em contato com a Ford por e-mail, conforme endereço disponível no site da empresa, desde quinta-feira (8), mas não obteve resposta sobre o caso até o momento. O espaço permanece aberto para manifestações.