Mineração no Brasil – Uma história de espoliações II

BSB Capital 25/03/2022 às 8:30, Atualizado em 30/03/2022 às 13:20

Carajás, mais uma oportunidade de desenvolvimento perdida

Foto: ANM

J. B. Pontes (*)

Os minérios são estratégicos, por serem necessários à produção de carros, celulares, computadores, baterias… Enfim, para todos os bens de que uma sociedade moderna precisa para viver. A mineração é, portanto, o elo inicial de uma cadeia de produções industriais que agregam valor, gerando empregos, renda e riqueza para uma sociedade, o que contribui para o desenvolvimento socioeconômico de uma nação.

Por isso, a grandiosidade das reservas e a riqueza de minérios estratégicos de Carajás são uma preciosidade pouco conhecida dos brasileiros. E poderiam ter ensejado um projeto de desenvolvimento industrial, econômico e social do Brasil. No entanto, a opção dos nossos governantes foi pela exportação in natura, como commodities de baixo valor agregado, que vão gerar muitos empregos, renda e riqueza nos países importadores.

Antes de iniciar a exportação, o governo brasileiro chegou a formular um programa de fomento à verticalização do minério (o “Grande Carajás”, de 1980), indo do minério ao aço e abrindo um vasto leque de outros segmentos produtivos. Nada de positivo que nele se previa foi realizado e tudo de negativo que se temia ocorreu.

A Companhia Vale do Rio Doce (hoje Vale), lucrativa antes da privatização, era a mais valiosa estatal do Brasil. A maior mineradora do País e uma das maiores exportadoras de minério do mundo, em especial de ferro, manganês, cobre, níquel e ouro. Detinha ela as maiores jazidas do mundo, situadas no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais e na Província Mineral da Serra dos Carajás, no Pará.

Quando privatizada, em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso, as reservas minerais da Vale eram calculadas em mais de R$ 100 bilhões. E ela foi leiloada por R$ 3,4 bilhões. Um crime de lesa-pátria!

Desde a descoberta, as jazidas da Serra dos Carajás despertaram a cobiça das grandes multinacionais, que desejavam torná-las estratégicas para os seus países. E, de fato, desde o início da exploração, em 1984, os minérios de Carajás foram destinados à exportação, inicialmente para o Japão e hoje para a China, que importa 60% da produção de suas minas, agora lavrando, transportando e vendendo minério. A Vale passou a ser um enclave estrangeiro no coração do Brasil.

Foto: Reprodução

No silêncio, as imensas jazidas do complexo Serra dos Carajás vão sendo com voracidade exportadas, especialmente para a China, a preços aviltantes. A produção de minério de ferro pela Vale em Carajás alcançou, em 2021, 230 milhões de toneladas. Para 2022, a Vale estima produzir até 335 milhões de toneladas de minério de ferro.

Cada trem transportador para o porto de São Luiz/MA tem 600 vagões e 7 quilômetros de extensão. O maior do mundo. Supera os rivais australianos. Transportaram, em 2021, cerca de 230 milhões de toneladas com destino principal para a China.

Estima-se que, em quatro décadas, nada mais restará desses depósitos. As reservas são lavradas e transportadas com uma avidez suspeita, como se o explorador (a Vale) temesse que os brasileiros despertem do sono indolente que os acomete e descubram que estão cedendo um patrimônio insubstituível (minério não tem duas safras), sem fazerem o menor esforço para dar-lhe melhor aproveitamento econômico e social.

E o povo do Pará, assim como ocorreu com o do Amapá, continuará tão decepcionado e pobre como antes.

(*) Geólogo, advogado e escritor

(Principal fonte de pesquisa: artigos do jornalista e psicólogo Lúcio Flávio Pinto, no site amazôniareal.com.br)

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