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Política

Lula virou samba e pode pagar caro por isso?

Desfile na Sapucaí embala militância, mas alimenta narrativa da oposição

  • Júlio Pontes
  • 17/02/2026
  • 11:59

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Lula na pista da Marquês de Sapucaí, com o mestre-sala e a porta-bandeira da Acadêmicos de Niterói - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O enredo “Lula, o operário do Brasil” cruzou a avenida no último domingo (15), na Marquês de Sapucaí, com referências explícitas ao número 13 e versos que exaltavam a trajetória do presidente. Trechos do samba-enredo celebravam o líder como símbolo de resistência popular, evocando a ascensão “do chão da fábrica ao Planalto” e a ideia de que “o povo escreve a própria história”.

Na transmissão da TV Globo, o jingle “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” ecoou por mais de uma hora. A homenagem, no entanto, saiu do campo cultural e migrou para o debate eleitoral. Lideranças da direita recorreram às redes sociais para cobrar posicionamento do Tribunal Superior Eleitoral, sob alegação de propaganda antecipada — ainda que não tenha havido pedido explícito de voto.

Na narrativa oposicionista, o presidente perde em qualquer cenário. Se não houver punição, reforça-se o discurso de suposto favorecimento institucional. Se houver sanção, o episódio pode ganhar contornos jurídicos mais graves, inclusive com discussão sobre inelegibilidade. Em nota, o PT afirmou que “não há fundamento jurídico para qualquer discussão sobre inelegibilidade relacionada ao episódio”.

A controvérsia não se limita ao campo legal. Um dos carros trouxe a sátira “Famílias em conserva”, crítica aos chamados neoconservadores. No universo do carnaval, a provocação faz parte da tradição. Ainda assim, a imagem serviu como combustível para adversários que acusam a esquerda de atacar valores familiares — justamente no momento em que Lula tenta ampliar diálogo com o eleitorado evangélico.

Ala “Neoconservadores” trouxe fantasia com dizeres “família em conserva”. Foto: Reprodução/TV Globo

Entre 9 e 16 de fevereiro, os três conteúdos mais engajados entre presidenciáveis nas redes trataram do desfile: dois do governador Romeu Zema e um do senador Flávio Bolsonaro. Zema publicou uma música criada com inteligência artificial que ultrapassou 22 milhões de visualizações no Instagram e chegou ao Spotify. Já a presença de Lula na Sapucaí, ao lado do prefeito Eduardo Paes, somou cerca de 5 milhões de visualizações.

A escola se manifestou após a repercussão. Em nota, a Acadêmicos de Niterói afirmou que espera um julgamento justo do desfile, “sem que opiniões políticas interfiram na análise artística”, e reiterou que o carnaval é espaço de expressão cultural e liberdade criativa.

Não é a primeira vez que um presidente vira enredo no chamado Maior Espetáculo da Terra. O carnaval sempre misturou festa e crítica social. A diferença, agora, está no timing. Em ano pré-eleitoral, cada verso ganha peso estratégico. Quando o samba diz que “o povo é a voz que nunca se cala”, a mensagem ultrapassa a avenida.

Ao aceitar virar personagem principal da folia, Lula apostou na força simbólica da cultura popular. Resta saber se, na apuração fora da Sapucaí, o saldo virá com nota dez ou se a política vai atravessar o desfile. Porque, no fim das contas, na avenida da vida pública, quem não arrisca não evolui — mas também pode “pisar na linha” e perder pontos no último quesito.

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