Tersandro Vilela (*)
Em janeiro deste ano, o influenciador senegalês-italiano Khaby Lame anunciou um acordo de US$ 975 milhões com a Rich Sparkle Holdings para licenciar sua imagem, voz, expressões faciais e padrões comportamentais a um sistema de inteligência artificial capaz de replicar sua personalidade online.
O contrato prevê a criação de um “AI Digital Twin”, um clone virtual autorizado a reproduzir os trejeitos que transformaram Lame em fenômeno global. O influenciador, conhecido pelos vídeos mudos em que ironiza tutoriais absurdos da internet, permitiu o uso de seus dados biométricos, os chamados “Face ID”, “Voice ID” e modelos comportamentais, para a produção automatizada de conteúdo em diferentes idiomas e fusos horários.
Na prática, trata-se da industrialização da personalidade com o avatar, que poderá realizar transmissões comerciais, campanhas publicitárias e interações digitais 24 horas por dia, sem a presença física do criador.
A operação é vista por analistas como um marco da chamada “economia dos criadores”, na qual influenciadores deixam de vender apenas audiência para negociar a própria identidade como ativo escalável.
O anúncio provocou euforia no mercado, inclusive, da Rich Sparkle, empresa listada na Nasdaq e até então ligada ao setor de impressão financeira, ao afirmar que o projeto poderia movimentar mais de US$ 4 bilhões anuais em comércio eletrônico e licenciamento digital.
Mas a narrativa do “primeiro influenciador bilionário da IA” rapidamente começou a ruir. Investigações posteriores mostraram que o negócio não envolvia pagamento em dinheiro: os US$ 975 milhões correspondiam a ações emitidas pela própria companhia. O valor dependia da cotação dos papéis, que despencaram mais de 90% após a divulgação do acordo.
A ausência de confirmações regulatórias definitivas e as restrições impostas por corretoras americanas alimentaram suspeitas de que o caso pudesse representar mais uma operação especulativa do que uma revolução econômica concreta.
Ainda assim, o episódio inaugura uma discussão inédita: o que acontece quando um ser humano licencia não apenas sua imagem, mas sua capacidade de existir digitalmente?
A fronteira entre pessoa, marca e algoritmo nunca foi tão tênue.
(*) Jornalista pós-graduado em Filosofia, especialista em Liderança: gestão, resultados e engajamento, e mestrando em Inovação, Comunicação e Economia Criativa