Império decadente

Julio MiragayaPor ,03/12/2020 às 10:10, Atualizado em 03/12/2020 às 9:50

EUA fecham 2020 com dívida pública de US$ 25 trilhões

Foi divulgado esta semana que a dívida pública dos EUA fechará 2020 em incríveis US$ 25 trilhões (122% do PIB), mais que o dobro do que em 2003 (57%) e superior inclusive ao recorde alcançado em 1945, no pós-guerra (106%). Estaria o império em declínio?

Em seu célebre livro “O Longo Século XX”, o economista italiano Giovanni Arrighi discorreu sobre os quatro principais ciclos sistêmicos de acumulação de capital que redundaram na formação e consolidação do sistema capitalista, e que tiveram, cada um deles, um país hegemônico: Gênova, Holanda, Grã-Bretanha e Estados Unidos.

Cada ciclo hegemônico durou entre 100 e 200 anos e, ao seu final, o predomínio de um país era superado por outro, e, via de regra, envolvendo conflito bélico.

Desde o fim do século XIX, os Estados Unidos disputavam com a Grã-Bretanha (e a Alemanha) a hegemonia no processo de acumulação de capital, e assumiram a dianteira a partir do fim da 1ª Guerra Mundial. Ao fim da 2ª Guerra – com a Europa, a URSS e o Japão sob escombros – seu predomínio era absoluto, respondendo por cerca de 40% da produção industrial do planeta.

Ocorre que, desde então, com a recuperação dos demais países, a participação dos EUA no PIB mundial vem decrescendo. Pelo critério de Paridade do Poder de Compra (PPC), o PIB norte-americano perdeu a liderança para a China e, em 2018, correspondeu a apenas 15% do PIB mundial, participação que deve ter caído em 2020 com a crise provocada pelo novo coronavírus.

Não só os EUA perdem terreno, mas o conjunto dos países desenvolvidos. Os dez países ricos que integram o bloco formado e hegemonizado pelos EUA, o G-20 (os sete do antigo G-7: EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá acrescidos da Austrália, Coreia do Sul e Espanha) respondiam, em 2018m por 34% do PIB e 11% da população mundial.

Já os outros dez integrantes do G-20, as chamadas economias emergentes (China, Índia, Rússia, Indonésia, Brasil, México, Turquia, Arábia Saudita, Argentina e África do Sul), respondiam por 42% do PIB e 48% da população do planeta, sendo que só a China representa 20% e 18% respectivamente.

É importante frisar que países com economias relevantes e que são potências regionais foram excluídas do bloco por razões geopolíticas e sectarismo religioso. As dez principais economias periféricas seguintes (Irã, Paquistão, Nigéria, Egito, Tailândia, Malásia, Filipinas, Vietnã, Bangladesh e Colômbia) possuem 1,15 bilhão de habitantes e ostentavam em 2018 um PIB de US$ 10,8 trilhões. Somadas às dez primeiras economias emergentes, representavam 50% do PIB e 63% da população mundial.

Mas, embora venha perdendo a hegemonia econômica, expressa na queda de participação no PIB mundial e na excepcional dívida pública, os EUA ainda são a principal potência bélica do planeta. Seus gastos militares, de US$ 800 bilhões/ano, representam mais de 40% do total mundial. É o triplo do gasto chinês e dez vezes maior que o russo. E é aí que mora o perigo!

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável (UnB) e ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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