Tersandro Vilela (*)
A inteligência artificial virou o principal “fator de reengenharia” do mercado de trabalho, mas a direção do impacto, segundo relatórios e levantamentos recentes, é menos linear do que a narrativa do “fim dos empregos” sugere.
A previsão mais citada para o horizonte de 2030 é de forte chacoalhão, com saldo positivo: o Fórum Econômico Mundial estima que a transformação estrutural deve atingir 22% dos postos atuais, combinando 170 milhões de vagas criadas e 92 milhões deslocadas, para um ganho líquido de 78 milhões.
Nesse cenário, funções ligadas a IA e aprendizado de máquina, big data e desenvolvimento de software aparecem entre as que mais crescem em termos percentuais. O curto prazo, porém, mistura expansão de demanda com cortes seletivos.
Nos EUA, uma análise divulgada pela Vanguard e repercutida pela Axios encontrou, de 2023 a 2025, crescimento maior de salários reais (3,8%) e do emprego (1,7%) nas ocupações mais “expostas” à IA do que nas menos expostas, um retrato que aponta para ganhos por complementaridade, ao menos nesta fase.
Ao mesmo tempo, ondas de demissões em grandes empresas em 2025 mostram que a adoção de IA também está sendo usada como motor de reorganização e eficiência, especialmente em áreas administrativas e funções de suporte.
CAPACITAÇÃO – O que muda, de forma consistente, é o valor do repertório. O “AI Jobs Barometer” da PwC, baseado na leitura de quase 1 bilhão de anúncios de vagas em seis continentes, conclui que salários sobem duas vezes mais rápido nos setores mais expostos à IA e que trabalhadores com habilidades de IA chegam a ter prêmio salarial médio de 56%. O mesmo estudo aponta que as competências exigidas em empregos expostos à IA mudam 66% mais rápido do que em funções menos expostas.
Na estratégia corporativa, a previsão é de uma corrida dupla: contratar e requalificar. No Work Trend Index 2025, a Microsoft registra que 78% dos líderes consideram contratar para funções específicas de IA (95% nas chamadas “Frontier Firms”) e que 47% colocam a capacitação como prioridade no horizonte de 12 a 18 meses.
Se há um consenso emergente, é este: a IA tende menos a “apagar” o trabalho e mais a redistribuir poder, renda e oportunidade para quem aprende rápido e para quem fica preso a tarefas rotineiras, a transição pode ser brusca.
(*) Jornalista pós-graduado em Filosofia, especialista em Liderança: gestão, resultados e engajamento, e mestrando em Inovação, Comunicação e Economia Criativa