Guará se mobiliza contra a privatização do Cave

juliocpontesPor , Orlando Pontes23/03/2018 às 14:51, Atualizado em 23/03/2018 às 16:20

Comunidade organiza “abraço” no complexo, que tem estádio, ginásio, kartódromo e Centro de Convivência de Idosos

O projeto de PPP para o complexo do CAVE não é bem vista pelos atuais ocupantes do local. Foto: Reprodução

O governo de Brasília terá um grande desafio no próximo mês de abril. A população do Guará está mobilizada para barrar o projeto de privatização do Centro Administrativo Vivencial e Esportivo (Cave) da cidade. O complexo inclui o estádio Antônio Ottoni Filho, o ginásio de esportes, o Kartódromo Ayrton Senna e o Centro de Convivência de Idosos (CCI).

O primeiro passo do projeto de Parceria Público-Privada (PPP) do Cave é uma licitação marcada para 12 de abril. Está prevista para aquela data a abertura dos envelopes com as propostas para a concessão de uso do kartódromo. Mas a medida tem a resistência dos 350 profissionais que trabalham no local. E eles contam com o apoio dos usuários do estádio e do ginásio e dos frequentadores do CCI.

O grupo está se organizando para tomar “medidas judiciais cabíveis” e fazer manifestações públicas que chamem a atenção das autoridades. Uma delas seria um grande “abraço no Cave”, em data ainda indefinida, mas que será marcada para antes do dia da licitação.

 

Blindado

O atual cessionário do kartódromo, José Argenta, reclama da falta de diálogo com o governo. Segundo ele, o processo de privatização vem sendo tocado por técnicos insensíveis aos apelos da comunidade, que blindam o governador Rodrigo Rollemberg (PSB). “Não nos deixam ter acesso a ele para explicar o que está ocorrendo e mostrar quais são as expectativas da comunidade”, afirma.

“A população do Distrito Federal tem que ser informada desse processo. Privatizar o Cave não trará nenhuma vantagem para os moradores do Guará. E entregar o kartódromo para exploração da iniciativa privada só beneficiará os empresários que visam lucro e não se preocuparão com os projetos sociais que desenvolvemos aqui”, diz Argenta.

Ele cita como exemplo a escola de formação de pilotos. “Somos uma referência nacional. Daqui já saíram grandes talentos para o automobilismo mundial. Podemos citar, entre outros, os ex-pilotos de Fórmula 1 Nelson Piquet (tricampeão da categoria), Alex Dias Ribeiro, Roberto,Pupo Moreno, Nelsinho Piquet, Felipe Nasr (pentacampeão brasiliense de Kart de 2000 a 2004) e Vitor Meira (campeão da Fórmula 3 em 2000).

O campeão brasileiro de Stock Car em 2016, Felipe Fraga, também deu suas primeiras voltas ao volante no Kartódromo do Guará. No mesmo ano, ele foi o campeão da Corrida do Milhão. Ainda na Stock Car Brasil, outro destaque (temporada de 2005) foi o brasiliense Luiz Garcia Júnior.

Júlio da Lanchonete, Túlio de Paiva e Felipe Moraes. Kartódromo. Foto: Júlio Pontes

Uma grande família

Os empresários Túlio de Paiva (foto), da TPC Motor Sport, e Felipe Moraes participam das atividades do kartódromo do Guará desde 1976. Eles colaboram para a realização dos campeonatos locais. Radicalmente contra a privatização pretendida pelo GDF, Paiva cita outros benefícios sociais oferecidos no espaço, como o treinamento de motoristas do Samu, do Exército, do Detran, da PM, da Polícia Federal, e de motociclistas que trabalham como motoboys.

O comerciante Júlio Leonardo Moreira, O Júlio da Lanchonete, é um apaixonado pelo kartódromo. Ele tem 43 anos, mas frequenta o espaço desde criança, quando morava no Guará. Hoje residindo em Taguatinga, sempre que possível, ele dedica algum tempo nos fins de semana para prestigiar as atividades do kartódromo. “Isto aqui é uma grande família”, atesta.

José Argenta esclarece que ninguém é contra o governo fazer melhorias no kartódromo. Mas, segundo ele, o que está na proposta de PPP representará um grande retrocesso social. Os boxes atuais têm dois pavimentos de 4m X 8m cada (64m² ao todo), onde funcionam as oficinas e os depósitos das equipes.

Pelo edital da PPP, serão criados 164 boxes de 3m X 2m (6m²). “Em Brasília, todo mundo mora em apartamento. Como as pessoas guardarão ferramentas e equipamentos em um espaço tão pequeno?”, questiona.

SAMU, Polícia Civil, Militar, Federal, Forças Armadas utilizam o lugar para capacitar seus pilotos. Foto: Júlio Pontes

GDF diz que é concessão de uso

O subsecretário de Parcerias Público-Privadas da Secretaria de Fazenda do GDF, Rossini Dias, garante que o edital não trata da privatização do Cave, mas, sim, de uma concessão de uso do kartódromo. A empresa ou consórcio vencedor da licitação poderá explorar o espaço por 30 anos, renováveis por igual período. “A situação deles, hoje, é precária, irregular. O que a gente está querendo é dar uma regra”, diz ele.

No edital, segundo Rossini Dias, estão previstas contrapartidas sociais, como uma agenda de cronograma para o preparo de karts e motores. Quanto à reclamação de blindagem de Rollemberg, ele alega que não cuida da agenda política do governador. Mas avisa que também “estão no radar” da subsecretaria que comanda a instituição de PPPs para o estádio, o ginásio coberto, o clube de Vizinhança II, o Teatro de Arena e as quadras poliesportivas. A previsão é de que os editais para essas concorrências sejam publicados até o próximo mês de julho.

Deixe um comentário

Rolar para cima