Nathália Guimarães
Mais da metade dos brasileiros (52,4%) convive diariamente com ligações indesejadas, segundo levantamento da Digital Made Accessible (DMA), empresa global de tecnologia. O problema não apenas persiste como vem aumentando: em 2025, o volume de chamadas de spam cresceu 12% em relação ao ano anterior. A cada mês, surgem cerca de 400 novos números suspeitos, enquanto aproximadamente 3,6 mil linhas são utilizadas para disparos automáticos de chamadas abusivas.
Embora boa parte da população receba ligações ocasionais, uma parcela enfrenta uma rotina ainda mais desgastante. Cerca de 3,9% dos brasileiros relatam receber mais de 30 chamadas indesejadas por mês. O setor financeiro lidera as ocorrências, concentrando 61% dos casos, seguido pelas empresas de telecomunicações, com 18%. Isso significa que muitas ligações simulam contatos de bancos, cartões de crédito ou operadoras.
Na prática, o incômodo virou parte do dia a dia. Em Ceilândia, o analista Vinicius Siqueira, de 23 anos, relata que as chamadas são constantes. “Recebo ligação quase todos os dias, principalmente de operadoras. Mesmo bloqueando os números, eles continuam ligando com outros contatos. Quando vejo número desconhecido, já fico desconfiado”, afirma.
Golpes frequentes e sofisticados
Além do inconveniente, cresce a preocupação com fraudes. No Distrito Federal, 23% da população foi protegida contra tentativas de golpe por telefone nos últimos 12 meses, o maior índice do País. Em Goiás, o percentual chega a 21%, enquanto São Paulo lidera com 28%. Em um recorte mais recente, 24% dos moradores do DF relataram ter sofrido tentativa de golpe apenas no último trimestre de 2025.
Os criminosos têm utilizado estratégias cada vez mais elaboradas. Atualmente, 82% das tentativas envolvem golpistas que se passam por mais de uma empresa ou instituição, criando uma narrativa convincente para enganar a vítima. Uma das técnicas mais comuns é o “spoofing”, que faz com que o número exibido no telefone pareça legítimo, como se fosse de um banco, órgão público ou empresa conhecida.
Segundo Adrian Galeti, vice-presidente de Tecnologia e Inovação da DMA, os golpes deixaram de ser ações simples e passaram a operar com lógica estruturada. “Há uso de dados vazados, segmentação de perfis e, mais recentemente, inteligência artificial para simular voz, imagem e até situações de urgência emocional”, explica.
Essa evolução torna mais difícil identificar o golpe, principalmente para idosos, que estão entre os principais alvos. Muitas vezes, os criminosos exploram a confiança, a educação e a disposição desse público em atender ligações. Situações de pressão, como supostos problemas bancários, bloqueios de conta ou emergências familiares, são usadas para induzir decisões rápidas.
Idosos são os mais vulneráveis
Galeti aponta que não existe um perfil único de vítima, mas idosos os tendem a estar mais expostos também por fatores como menor familiaridade com tecnologias de segurança e maior tendência a confiar em contatos diretos por telefone.
Outro dado preocupante é a duração das chamadas. Cerca de 74% das ligações fraudulentas duram mais de cinco minutos, tempo suficiente para criar um ambiente de confiança e convencer a vítima a fornecer dados sensíveis. Em média, cada pessoa recebe três tentativas de golpe por mês.
Como se proteger
Diante desse cenário, a principal orientação é adotar uma postura preventiva. “Se houver urgência, desconfie. Golpistas pressionam para que a pessoa decida rápido. E nunca compartilhe senhas, códigos ou informações pessoais por telefone”, alerta o especialista.
Entre as medidas simples que podem ajudar a reduzir riscos, estão evitar atender chamadas de números desconhecidos com frequência; não retornar ligações suspeitas; confirmar qualquer informação diretamente com o banco ou empresa, usando canais oficiais; pedir ajuda a familiares em caso de dúvida; e utilizar serviços como o “Não Me Perturbe”, da Anatel — funcionalidade em smartphones (Android/iOS) que silencia chamadas, alertas e notificações.