General Santos Cruz: “Bolsonaro subestimou a pandemia”

orlandopontesPor ,07/05/2021 às 8:37, Atualizado em 07/05/2021 às 8:37

“O foco, hoje, tem que ser apoiar os necessitados e vacinar a população”

General Carlos Alberto Santos Cruz combate o fanatismo bolsonarista e a tentativa de arrastar as Forças Armadas para jogo político. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Primeiro chefe da Secretaria de Governo de Jair Bolsonaro, o general Carlos Alberto Santos Cruz, 67 anos, ficou apenas cinco meses no cargo. Saiu por divergências com o chamado gabinete do ódio, “uma turminha que não ajuda em nada e só atrapalha o andamento da vida nacional”.

Ele combate o fanatismo bolsonarista e a tentativa de arrastar as Forças Armadas para jogo político. “Chegamos a interpretações absurdas de que o Exército era o Poder Moderador entre relacionamento dos Poderes. O Exército não é instrumento de intimidação política ou ferramenta de jogo de poder pessoal ou de grupo”, diz ele.

Nesta entrevista ao Brasília Capital, Santos Cruz afirma que o ex-juiz Sergio Moro seria um “excelente presidente num país onde o combate à corrupção precisa continuar”. Admite ser candidato a um cargo eletivo em 2022 e avalia que o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, pode se complicar na CPI da Covid por ter obedecido as ordens de Bolsonaro. “Quando uma pessoa manda, você obedece dependendo do que ela mandou. Não é qualquer ordem que você cegamente sai atrás. Pelo contrário”.

Se o Brasil fosse um quartel, que ordem o general Santos Cruz daria ao capitão Jair Bolsonaro? – A única coisa que eu pediria era para ele fazer as coisas de maneira equilibrada, com calma.

O senhor acha que ele está sendo desequilibrado e nervoso? – Ah, sem dúvida nenhuma!

Em que aspectos? – Nas reações, na maneira de criar determinados confrontos desnecessários com pessoas, com profissionais de imprensa. São coisas desnecessárias que não trazem ganho nenhum. Pode animar a torcida, aqueles que gostam do estilo, mas não trazem benefício para a governança.

Bolsonaro está jogando para a torcida? – Às vezes. É pelo próprio estilo dele.

Esse estilo desagradou o senhor quando esteve no governo e entrou em atrito com pessoas da família do presidente… – O que eu não gostei, não aceitei, não me adaptei foi essa interferência não só familiar, mas de pessoas próximas, que se comportam no mesmo nível de fanatismo, sem o padrão exigido para uma autoridade desse nível. Essas influências atrapalham o próprio governo.

Essas pessoas continuam no governo? – Algumas sim, outras não. É um grupo pequeno que a gente percebe pela internet. Inclusive, completamente desqualificados, conversando num linguajar que você não consegue nem repetir para a população.

É o gabinete do ódio? – É. A imprensa deu esse nome para essa turminha. São pessoas que não ajudam em nada. Só atrapalham o andamento da vida nacional.

A pandemia foi subestimada pelo governo Bolsonaro? – Ela foi completamente mal conduzida, não só subestimada. A falta de métodos de trabalho, a falta de percepção da dimensão do problema, a recusa de liderar o processo. Um processo desse tem que ser um país unido. Numa batalha como essa que o Brasil está enfrentando, tinha que ser com todo mundo unido. É uma guerra. Precisamos da comunidade científica, do Ministério da Saúde, economia. Todo mundo. É 100% de engajamento nacional. Mas não houve essa união. Não houve a percepção de que era uma hora do governante dizer: eu vou liderar. Abraçar os governadores, seja de partido for. Depois, cada um segue seu destino, busca o seu objetivo político. Mas esse momento tinha que ser com todo mundo junto.

“A distância entre o sucesso e o fracasso é muito pequena, quase nada. Então, se não houver a união realmente, a chance de dar errado é muito grande”. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O senhor teve essa experiência de coordenar forças da ONU nas guerras civis no Haiti e no Congo. Poderia ter contribuído com o governo neste momento? – Não me coloco mais nessa posição, não. Tem muita gente boa no Brasil. Eu sou mais uma na nossa população. O que acontece é que, como num combate, a distância entre o sucesso e o fracasso é muito pequena, quase nada. Então, se não houver a união realmente, a chance de dar errado é muito grande.

União e comando. Afinal, o presidente já trocou quatro ministros da saúde e não dá sequência a um trabalho. – Não há nada de ilegal na troca de ministro. Nenhum governo no mundo começa e termina com a mesma equipe. Mas, no Ministério da Saúde, numa época de pandemia, você ter quatro ministros realmente é um sintoma ruim. Um sintoma de dificuldade de ajuste.

E quem ficou mais tempo no cargo foi exatamente o ministro que aceitou a regra de um manda e o outro obedece… – Isso aí não é uma boa ideia para esse nível. Quando uma pessoa manda, você obedece dependendo do que ela mandou. Então não é qualquer ordem que você cegamente sai atrás. Pelo contrário.

E estamos falando de Ministério da Saúde. – É um nível ministerial, o mais alto que tem. Aí, na execução de políticas públicas você tem que se posicionar. Não tem como utilizar essa filosofia de um manda e o outro obedece.

Nessa filosofia, o ministro Pazuello adotou padrões como o uso da cloroquina que resultou em situações como aquela de Manaus. – Aquele problema lá deve ter várias razões. O Brasil tem um sistema único de saúde, que pega o governo federal, governos estaduais municipais. Então tem que ver porque que o sistema não funcionou. Você pode ter às vezes responsabilidade direta de um secretário, de um ministro, de um secretário municipal, de um responsável técnico.

Tantos erros e desmandos desaguaram numa CPI. Como o senhor vê o trabalho dessa comissão? – CPI tem uma característica essencial de política. É um inquérito, mas quase sempre 100% político. Vamos ver como é que ela vai se comportar. Está muito no início ainda.

Dois ex-ministros e o atual já compareceram. A ausência do Pazuello preencheu um grande vazio no governo? – Eu acho que a ausência é prejudicial para elucidar os fatos. É importante que o depoimento aconteça. Vai trazer elementos para a avaliação. Houve alegação, por motivo de saúde. Mas já tem data marcada. Eu acredito que é importante que isso aconteça, porque é fundamental a presença do ex-ministro.

”O Exército não é instrumento de intimidação política ou ferramenta de jogo de poder pessoal ou de grupo”. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Não ficou estranho o general Pazuello circular por um shopping, sem máscara e poucos dias depois alegar que não pode comparecer à CPI porque teve contato com dois coronéis que estariam contaminados pela covid? – É. Ainda mais porque a presença dele é extremamente importante e muito esperada. E essa quebra de ritmo nos depoimentos traz essa expectativa. Mas isso vai se regularizar. Não tem jeito. O relógio não para.

Pazuello seria “um filho teu que fugiu à luta”? – Não. Eu não vejo assim.

Ele pode se complicar na CPI? – Ele foi avaliado como uma pessoa que tem capacidade para se expressar e para responder o que precisa. Agora, se isso vai ser aceito ou não, é uma questão da comissão de inquérito.

Mudando de assunto: o senhor pretende disputar a eleição no ano que vem? – Eu nunca pensei em entrar para política. Quando eu fui convidado para ser ministro, tive essa primeira participação política. E no meio do ano passado, duas coisas me fizeram tomar essa decisão de aparecer publicamente. A primeira foi o fanatismo que está sendo estimulado no Brasil, que é um absurdo. O outro fator foi quando começou a tentativa de arrastar as Forças Armadas, especificamente o Exército, para jogo político. Então eu me lancei publicamente para alertar que não tem cabimento. Chegamos até a interpretações absurdas de que o Exército era o Poder Moderador entre relacionamento dos Poderes. O Exército não é instrumento de intimidação política ou ferramenta de jogo de poder pessoal ou de grupo. Agora, eleição, eu já tive convite de um monte de partido político, mas não parei para pensar nisso ainda. Então, eu vou pensar nisso daqui a pouco. Vai ter a hora certa de pensar nisso.

E a que cargo o senhor concorreria? – Tudo pode. Mas não é essa a minha pretensão, não.

Recentemente o senhor foi convidado pelo deputado José Netto a se filiar ao Podemos. – Vou telefonar para o deputado para agradecer. Me honra muito o partido dizer que gostaria que eu fosse para lá. Eu vou conversar com ele.

O senhor é defensor da Lava-Jato. Como é sua relação com o ex-ministro Sergio Moro? – Eu tinha relação bem comum com ele na época que eu era ministro. É uma pessoa por quem eu tenho muita consideração. Acho que ele faz parte da história do Brasil. A Lava-Jato foi uma esperança de reação contra a corrupção num país de privilégios absurdos. Um país em que a Justiça ainda não funciona bem, onde aqueles que têm mais poder ou mais dinheiro têm mais chance de conseguir acesso à Justiça. Nesse quadro ele foi um dos baluartes dessa esperança da nossa população de que é possível aplicar a lei para todos.

Moro também foi convidado para o Podemos para ser candidato ao governo do Paraná ou à Presidência da República. – Eu nunca conversei com ele sobre isso. Mas ele seria excelente como presidente ou como governador, principalmente num país onde o combate à corrupção precisa continuar. Ele é uma pessoa que personificou isso. Trouxe esperança para o Brasil. Tenho muito respeito por ele, muita admiração, muita consideração.

Se ele fosse candidato a presidente, o senhor poderia ser o vice? – Olha, não posso fazer nenhuma suposição que não dependa de mim. Esse tipo de coisa não depende de mim.

Mas só depende do senhor ser candidato a algum cargo por Brasília… – Isso aí tudo pode. Mas eu não parei para pensar nisso.

Aquela cadeira que foi sua hoje está ocupada pela deputada brasiliense Flávia Arruda. Acha que ela tem perfil para o cargo? – Eu não acompanho em detalhes. Mas ela está há pouco tempo. Ao menos não teve nenhuma atitude que sai da normalidade.

“O foco tem que ser vacinar. A vacina vai salvar vidas, vai parar essa catástrofe que a gente está tendo. Então, tem que parar isso com liderança. E isso vai fazer vai fazer também a economia voltar à normalidade”

Como vê as declarações do presidente da República contra a China, nosso principal parceiro comercial? – Esse tipo de briga não leva a nada. Antes, só piora. O nosso problema hoje é, independentemente de qualquer avaliação, a vacina. O nosso problema não é ficar discutindo, xingando esse ou aquele, ou arrumando confusão com um país ou outro, arrumando confusão com o governante de outro país. Nosso problema não é esse. E a dedicação a esse foco de trabalho não pode ser desviado por qualquer desequilíbrio, declaração ou qualquer outro assunto. O foco tem que ser vacinar. A vacina vai salvar vidas, vai parar essa catástrofe que a gente está tendo. Então, tem que parar isso com liderança. E isso vai fazer vai fazer também a economia voltar à normalidade.

E o que fazer com os milhões de brasileiros que estão sem ter o que comer? – O que tem que fazer é apoiar os necessitados. Mas a gente não viu reduzir o Fundo Partidário, mesmo simbolicamente, para dar exemplo. Eu não vi controle nas emendas parlamentares. Nós estamos dedicando bilhões aos parlamentares. O foco, hoje, tem que ser esse: apoiar os necessitados e vacinar. Aí volta a atividade econômica. O governante tem que transmitir paz, tranquilidade, harmonia. Não é só assunto técnico. Ele tem que transmitir um bom ambiente. E, nesse momento, transmitir ideais de solidariedade.

Ou seja: dar um bom exemplo… – É. Um presidente eleito com quase 58 milhões de votos, o que ele falar tem efeito, tem consequência. Então, ele precisa saber utilizar essa força para estimular o Brasil a ser solidário. Unir todo mundo. Aqueles que podem ajudar o vizinho, o funcionário. A principal mensagem agora é vacina e auxílio a quem precisa. Esse é o foco.

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