Na Estrutural, entre vielas, palcos improvisados e telas de celular, Xuxica, nome artístico de Felipe Martins dos Santos Costa, 29 anos, se construiu aos poucos, como quem entende que existir também é um ato de coragem. Antes de ser cantora e de virar personagem, havia um desejo antigo: ser vista, ouvida e lembrada.
A música, conta a drag queen, esteve presente desde cedo, mas demorou a encontrar espaço fora do sonho. Foi assim que nasceu Xuxica. Primeiro, como humor. Depois, como identidade. “A coragem que eu não teria como Felipe, eu tenho com ela”, resume.
Criada durante a pandemia, Xuxica surgiu nas redes sociais e logo recebeu do próprio público o título de drag queen do funk. A partir daí, os vídeos começaram a circular, os memes ganharam força e o rosto, ainda em construção, passou a ser reconhecido.
As primeiras gravações ocorreram de forma amadora, com celular na mão, colchões empilhados para abafar o som e criatividade para superar qualquer limitação técnica. “A gente não tinha recurso nenhum, então precisava se virar”, relembra. O primeiro lançamento solo marcou a virada. O que antes parecia brincadeira passou a ser projeto artístico.
Com o tempo, vieram os clipes, figurinos mais elaborados e a profissionalização. Xuxica deixou de ser apenas uma figura engraçada para assumir o lugar de artista, dando mais atenção ao cabelo, looks e movimentos. “Foi tudo um processo. A Xuxica foi se arrumando junto com o sonho.”
O acolhimento, ao contrário do que se imagina, veio rápido e o preconceito, não ganhou voz. Ser drag na periferia tornou-se símbolo de respeito e pertencimento. “As pessoas acham que a quebrada não acolhe, mas é justamente o contrário. Para subir, eu preciso da favela. Ela é minha base”, afirma. “É dali que vem a força para romper estereótipos”.
Musicalidade
A construção musical da drag acompanha o ritmo da internet. As canções já surgem pensadas para coreografias, sempre no intuito de viralizar, sem deixar o humor de lado. “Meu trabalho é muito ligado ao Instagram, então a música precisa conversar com isso”, explica.
Com a música “200 por hora”, que está próximo de atingir 100 mil reproduções no Spotify, Xuxica furou a bolha e chamou a atenção de Anitta, uma das cantoras mais identificadas com a comunidade LGBTQIAPN+.
Para 2026, a meta é acelerar ainda mais e conquistar novos públicos. “Sempre a 200 por hora”, garante.