Caroline Romeiro (*)
Raiane Oliveira de Araújo (**)
Entre atletas e praticantes de atividade física, os suplementos alimentares costumam ocupar o centro das conversas sobre performance. Mas uma nova publicação internacional reacendeu um debate importante: será que os alimentos do dia a dia podem, em alguns casos, substituir os produtos ergogênicos e industrializados usados no esporte?
O artigo, publicado no último mês de outubro no International Journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism (Wardenaar et al., 2025), resume as conclusões de dez especialistas que analisaram mitos e verdades sobre o uso de suplementos e o potencial dos alimentos naturais para otimizar o desempenho.
O encontro, realizado durante o congresso anual do American College of Sports Medicine, propôs uma reflexão sobre o conceito “comida primeiro, mas nem sempre só comida”, defendendo que a base da nutrição esportiva deve continuar sendo o alimento, com a suplementação utilizada apenas quando necessária.
Entre os exemplos discutidos estão substituições que já fazem parte da rotina de muitos atletas. O mel, o purê de maçã e a banana mostraram resultados semelhantes aos géis de carboidrato na reposição de energia durante o exercício, desde que as quantidades sejam bem ajustadas.
Da mesma forma, bebidas caseiras feitas com suco, sal e água, quando preparadas nas proporções corretas, podem ter efeito comparável ao de isotônicos comerciais na hidratação. Esses achados reforçam que a eficiência da alimentação não depende apenas do produto, mas da adequação às necessidades individuais.
Em muitas situações, alimentos naturais e minimamente processados oferecem nutrientes em combinações que o corpo reconhece e utiliza de forma eficaz, com benefícios adicionais, como melhor digestão, menor custo e menor risco de contaminação ou uso inadequado de substâncias.
O estudo também alerta: nem sempre é possível substituir tudo. A creatina, por exemplo, ainda é difícil de atingir em quantidades adequadas apenas pela alimentação, especialmente em dietas vegetarianas ou com baixo consumo de carnes e peixes. Nessas situações, a suplementação continua sendo uma estratégia segura e bem fundamentada cientificamente.
Portanto, o equilíbrio parece ser o caminho mais sensato. Antes de recorrer a produtos ergogênicos, é essencial avaliar se o cardápio já cobre o que o corpo precisa. E isso deve ser feito com orientação profissional.
Como reforça o grupo de especialistas, o alimento deve vir primeiro, mas a decisão final precisa sempre ser guiada por evidências e pelo bom senso nutricional.
(*) Mestre em Nutrição Humana, Coordenadora Técnica do Conselho Federal de Nutrição (CFN), Docente da Universidade Católica de Brasília (UCB)
(**) Estudante do 8º semestre de Nutrição da UCB