Uma cena bastante comum no mundo do empreendedorismo brasileiro é a seguinte: a pessoa passa o mês inteiro se dedicando, vendendo, atendendo clientes e resolvendo problemas. No entanto, ao chegar ao final do mês, ainda fica sem entender muito bem para onde foi todo o dinheiro. Essa sensação ajuda a explicar por que tantos pequenos negócios vivem em um estado constante de urgência, mesmo quando as vendas aumentam e a empresa está em movimento.
Thiago Godoy, fundador da plataforma Papai Financeiro e influenciador em educação financeira no Brasil, aponta que o cerne do problema reside na falta de previsibilidade financeira. Ele observa que muitos microempreendedores individuais (MEIs) costumam se concentrar apenas no dinheiro que entra, sem conseguir estabelecer uma estrutura saudável de fluxo de caixa, margem de lucro e outras questões financeiras.
“Faturamento é ego. Você pode faturar muito e lucrar pouco”, destacou Thiago durante o segundo dia do Esquenta Semana do MEI, promovido pelo Sebrae. O conteúdo completo da transmissão está disponível online.
Para Thiago, muitos empreendedores operam no piloto automático, transformando a conta da empresa em uma extensão de suas finanças pessoais. O dinheiro que deveria ser destinado ao negócio muitas vezes cobre despesas do lar, os pagamentos são feitos sem controle adequado e, aos poucos, se perde a clareza sobre o fluxo financeiro da empresa.
“Muitas vezes, a conta do negócio parece acessível, com dinheiro disponível, e a liquidez pode dar uma falsa sensação de segurança. Mas isso acaba obscurecendo a real situação do fluxo de caixa”, ele explicou.
Para simplificar essa organização financeira, Thiago desenvolveu a metodologia FIRME. Essa proposta reúne conceitos essenciais, como a separação entre contas pessoais e empresariais, a compreensão da margem de lucro, o controle do fluxo de caixa, a definição do pró-labore e a construção de uma reserva financeira. O objetivo é fazer com que o empreendedor deixe de administrar seu negócio apenas no improviso.
Ao abordar o tema da previsibilidade, Thiago destacou um comportamento comum entre empreendedores brasileiros: a tendência de olhar sempre para um dinheiro que ainda está por vir. Esse hábito cria um ciclo contínuo de ansiedade financeira e decisões impulsivas. Quanto mais um empreendedor depende de receitas futuras, maior é a dificuldade de organizar a gestão financeira no presente.
Essa discussão é ainda mais relevante em um cenário onde muitos pequenos negócios enfrentam parcelamentos longos, crédito caro, aumento constante dos insumos e pressão das redes sociais para aparentar crescimento rápido. “Vivemos em um mundo onde as pessoas tendem a mostrar muito mais do que vivem de fato. Há empreendedores que começam a ganhar dinheiro e logo se deslumbram. Sonhar é essencial, mas planejar esse sonho é ainda mais importante.”
A empreendedora Camila Policarpo compartilhou um retrato concreto dessa realidade ao contar sua experiência. Formada em engenharia de produção, ela decidiu empreender após perder o emprego no período pós-pandemia. A primeira ação foi investir o seguro-desemprego em cursos de confeitaria. Ela relata que…