Fátima Sousa: Antes de tudo, forte

orlandopontesPor ,27/07/2018 às 19:16, Atualizado em 27/07/2018 às 19:21

A paraibana quer governar Brasília “para enfrentar todos os problemas que ela tem”

Fátima Sousa quer governar Brasília “para enfrentar todos os problemas que ela tem”.

Fátima Sousa quer governar Brasília “para enfrentar todos os problemas que ela tem”. A candidata do PSol ao Buriti lembra Euclides da Cunha em Os Sertões – “o sertanejo é antes de tudo um forte” – ao se apresentar como mulher, enfermeira, paraibana, nordestina e gestora pública. Promete gerir a cidade a partir da criação de conselhos temáticos para ouvir as demandas da população, inclusive com o Orçamento Participativo. Quando estava no PT, participou da campanha de Luiza Erundina para prefeita de São Paulo e administrou o maior orçamento do Ministério da Saúde no governo Lula. Na gestão de Cristovam Buarque liderou, com a então secretária Maria José Maninha, o Programa Saúde em Casa no DF, que promete retomar.  Nesta entrevista ao Brasília Capital ela conta que saiu do PT  “por princípios e por valores”. Mas, “em defesa da democracia”, se alinha ao movimento Lula Livre.

Vamos trazer de volta um projeto que a cidade já viveu e gostou, que é Programa Saúde em Casa

A senhora tem um vasto currículo na área da Saúde. Como usaria sua experiência para melhorar a Saúde de Brasília? – Sou pré-candidata a governadora para administrar o DF e todos os problemas que ele tem. Referente à saúde, de fato, nós temos percorrido todas as regiões administrativas e é o que mais grita nas demandas da população. Vamos trazer de volta um projeto que a cidade já viveu e gostou, que é Programa Saúde em Casa. Esse é um programa eficaz.

Que foi coordenado pela sua correligionária Maninha, pré-candidata a deputada federal… – Ela divide comigo a responsabilidade de trazer de volta o Saúde em Casa.

 

Não seria muito caro reativar esse programa? – Não é questão de caro ou barato. Dinheiro não é problema no DF no que se refere à saúde. Temos que colocar o SUS para funcionar. Infelizmente, até hoje, entra governo e sai governo, e o SUS constitucional não funciona.

 

A senhora reveria o contrato do Instituto Hospital de Base? – Com certeza. Nesse caso, entregaram a responsabilidade do governo, garantida pela Constituição. Estou há 40 anos militando na área da Saúde, e o artigo mais difícil que colocamos na Constituição foi o 196, que garante ao cidadão a saúde aonde quer que ele more. É daí que vem a ideia do Saúde Em Casa. Nesse programa, o hospital e os postos de saúde são retaguardas. É o contrário do que vários governos vêm fazendo em Brasília. Eles colocam os hospitais como centro das atenções. Eu fui à UPA do Núcleo Bandeirante e não tinha nenhum médico por lá. Ou seja, isto contraria a natureza da Unidade é o Pronto Atendimento. Com o Saúde Em Casa, vamos massificar os agentes de saúde. Feito isso, vamos organizar a rede básica de saúde. O que nada mais é que os centros de saúde. Isso resolve. Isso funciona.

A ideia é descongestionar os hospitais… – Não só diminuir as filas dos hospitais, mas dar resolução. Por exemplo, um pico de hipertensão seria resolvido em casa pelos agentes de saúde. Isso é protocolar. Todos dizem que o Hospital Sarah Kubitschek é o melhor, e é verdade. Mas ele tem uma especialidade única e o faz bem. É isso o que vamos fazer com todos hospitais da cidade.

 

Cada unidade teria uma especialidade? – Claro. Há um perfil para cada hospital. Nós vamos definir conversando com cada diretor. Esse é o grande erro dos governos atuais: eles não discutiram com os profissionais da saúde. O HBB tem que voltar para o Estado. O Hospital do Paranoá seria referência em ortopedia. Mas hoje lá não tem gaze, não tem soro fisiológico. Se eu disser que o Hospital de Ceilândia vai ser especializado em Cardiologia, eu tenho que equipar para responder às demandas referentes à Cardiologia. Hoje, o Samu fica igual pingue-pongue, levando pacientes de hospital em hospital para saber onde tem atendimento. São vários exemplos de pessoas que morrem dentro do Samu por ele não saber para onde levá-las.

 

O segundo tema que domina o eleitorado é a Segurança Pública. O que a senhora faria para reduzir a violência no DF? – Nós formamos um grupo de trabalho com o que tem melhor em Brasília, inclusive com pessoas da UnB, para discutir isso. A coordenadora da nossa campanha é a professora Beatriz Vargas, que vem historicamente trabalhando nessa questão. Ela é pesquisadora da área de prevenção da violência. Nosso programa conta com três pontos que não vamos abrir mão: 1) Cuidar de quem cuida da segurança pública. Tratam servidores da Segurança Pública com muito descaso. Discutem apenas o salário, que é muito importante, mas não discutem a carreira profissional; 2) Vou investir pesado na prevenção. Os policiais vão fazer parte dos conselhos de segurança pública. Vamos usar e abusar das tecnologias para identificar em tempo real onde está acontecendo a violência. Vamos utilizar o dinheiro do Fundo Constitucional para equipar essas corporações; 3) Fazer a integração das políticas públicas. A segurança começa na creche, na educação. Quando você forma um cidadão resiliente, pacífico, aí começa prevenção. Nós vamos nos antecipar, com a prevenção.

 

Esse discurso de campanha é sempre muito simpático, mas na prática é pouco produtivo. O Sinpol só está preocupado com a paridade com a Polícia Federal. A senhora pagaria essa paridade? – Eu sou professora e trabalho com fatos. Com dados reais. Tenho afirmado que nós vamos sentar à mesa e saber o que temos de recurso disponível e abrir a caixa para usar esse recurso. Todo mundo vai saber o que tem e o que não tem no caixa do governo, inclusive do Fundo Constitucional. Vamos criar grupos de trabalho para as pessoas saberem os problemas e juntos resolvermos. Vamos montar uma câmara permanente para resolução de problemas com todos os servidores do GDF. Vamos criar um Conselho do Bem-Viver para atender os servidores, onde discutiremos defasagem salarial, questão de carga horária, carreira…

 

Como enfermeira, a senhora considera justo a jornada de 18 horas semanais de seus colegas na rede pública? – Essas diferenças e disparidades, quando colocadas à mesa, tenho certeza de que serão solucionadas. A administração pública não se segura com essas diferenças tão díspares.

 

O líder das pesquisas, Jofran Frejat, saiu da disputa. O que isso altera no cenário da campanha? – Minha candidatura não abala em nada. Eu não pertenço ao grupo do Frejat. Minha história de vida sempre foi em um partido de esquerda, e nunca saí. Aos 12 anos decidi meu lado e nunca mudei. No campo da Saúde, ter o Frejat na disputa significaria ter um debate. Nós iríamos cobrar o que o grupo dele não fez quando estava no governo. A ausência dele me dá uma responsabilidade maior porque eu vou ter que discutir todos os problemas da Saúde. Inclusive de governos dos quais ele participou. Para o cenário político, acho que ele fica devendo aos brasilienses quem são os demônios que o atormentaram. De que natureza foram essas pressões? Que diabos são esses que tumultuaram a política local? É lamentável para Brasília este segredo não ser revelado. Eu espero que ele o faça. Ainda tem tempo.

 

É muito difícil um partido pequeno, com pouco tempo de televisão, ganhar uma eleição majoritária. O PSol vai sair sozinho? – Não, o PCB fechou um acordo nacional e estará conosco.

O PCB fechou um acordo nacional e estará conosco.

É o suficiente para levar a mensagem de vocês? – Eu não vou levar só mensagem! Eu vou ganhar essa cidade. Nossa campanha é de outra natureza. Não viemos só para marcar posição. É muito legal você ir na casa das pessoas, olha no olho. Elas dizem a verdade, o que estão sentindo de fato. Nós não vamos comprar cabo eleitoral, não vamos fazer bandeirinha. Isso é coisa do outro lado.

 

O PT fazia esse discurso da honestidade e acabou envolvido no Mensalão e no Petrolão. Como assegurar que o PSol não vai fazer a mesma coisa? – Nós não vamos causar a mesma decepção. Se fôssemos, estaríamos todos no PT. Mas saímos por princípios e por valores. Ou seja, nós não vamos responder pelos erros do PT. O próprio PT deverá responder pelos seus erros. Se eles se perderam, irão pagar o preço por terem se perdido. Nós estamos na estrada certa.

 

Mas o seu partido levanta a bandeira do Lula Livre. – O que o (Guilherme) Boulos (candidato à presidência da) fez e muitos de nós fazemos é porque estão judicializando a política. Isso é muito ruim para democracia. Nunca vi um processo tão rápido e tão célere na Justiça brasileira quanto o de Lula.  Não estou julgando os erros de governo do Lula, nem toda a aliança que ele fez. O que eu quero dizer é que judicializar a política é errado. Não tem de se politizar, se não ele senta na cadeira dos políticos. Então, a bandeira Lula Livre é mais do que um nome. É a bandeira da democracia. Se hoje é Lula, amanhã pode ser eu ou pode ser qualquer um. A gente não pode admitir isso na Justiça.

 

1 comentário em “Fátima Sousa: Antes de tudo, forte”

  1. A diferença mais marcante de Fátima Sousa, além da sua carreira acadêmica e na gestão pública, está na firmeza de seu compromisso como futura governadora do DF.

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