O espaço histórico conhecido como Osoca, localizado em Cavalcante (GO), carrega uma rica e dolorosa história. Antigamente, foi a cadeia pública da cidade, um local que testemunhou as violências sofridas por pessoas escravizadas. Hoje, restam apenas ruínas, mas esses vestígios foram transformados por artistas locais em um símbolo de resistência e ressignificação.
Neste feriadão, que vai de quinta a domingo, o Osoca se tornará o palco da 4ª Mostra Afro Cena e da 3ª Mostra de Teatro Afro Cena. "Esse evento tem um significado profundo para a comunidade de Cavalcante, pois amplia o acesso à arte e à cultura em uma cidade que carece de um teatro ou de um espaço cultural voltado para as artes cênicas", compartilha Fátima Tertuliano, uma das coordenadoras do evento, em conversa com a Agência Brasil.
Ela ressalta que, além de simplesmente assistir aos espetáculos, a comunidade se envolve ativamente na organização e na produção do evento, participando também de atividades formativas. "Acredito que isso fortalece a identidade local, gera oportunidades e aproxima as pessoas da arte", reflete Fátima.
É importante lembrar que o Osoca não é apenas um prédio; ele é parte da memória coletiva da cidade e já desempenhou diversas funções ao longo do tempo. "Atualmente, ele é ressignificado pela cultura, pela arte e pelo convívio entre as pessoas. Realizar a mostra nesse local é uma forma de valorizar a história de Cavalcante", completa.
O evento, que acontece em território Kalunga — reconhecido como o maior território quilombola do Brasil —, reúne uma variedade de atividades, como espetáculos, apresentações musicais, oficinas e rodas de conversa. "O que hoje se transforma em arte, no passado foi um local onde funcionou uma guilhotina e, posteriormente, uma cadeia pública. Com o tempo, a Osoca se tornou um espaço para ações sociais e outros eventos", explica Edymara Diniz, outra coordenadora do evento. A sigla Osoca significa "Obras Sociais da Paróquia da Senhora Sant’Ana de Cavalcante".
Edymara acrescenta que a escolha desse espaço não visa apagar seu passado, mas sim enfrentá-lo de maneira honesta. "Ao trazer o teatro negro para esse local, estamos afirmando que um espaço que já foi palco de dor pode se transformar por meio da arte", diz.
Na quinta-feira (4), a mostra contará com a presença de artesãos, cozinheiras, artistas, estilistas e empreendedores culturais negros e quilombolas. No palco, teremos a Pequena Orquestra de Cavalcante, a Curraleira Engenho 2, a Dança Sussa Kalunga e o cantor quilombola Allexy Nerys. De sexta (5) a domingo (7), a Mostra de Teatro Afro Cena trará destaques como o espetáculo Danúbio (DF), o Sarará Crioulo, que envolve artistas de Cavalcante e do Quilombo Kalunga, o recital Vozes Negras, de Salvador (BA), e a performance Ancestrais a Benção, realizada por um coletivo de mulheres negras e indígenas de Goiás.