Estagflação, cruel para os pobres

Julio MiragayaPor ,10/12/2020 às 9:00, Atualizado em 09/12/2020 às 23:11

Assolado pela maior taxa de desemprego de nossa história, o trabalhador convive com uma taxa “real” de inflação de 15,9% a 24,5%

O termo estagflação descreve uma situação que combina estagnação ou recessão econômica com taxa de inflação em alta. Embora pareça contraditório (normalmente a estagnação econômica deprime os preços), ela tem sido recorrente em nosso país. Foi muito forte no início do governo Figueiredo, no final do governo Sarney, em todo o governo Collor, em 1999, com FHC, e em 2015, com Dilma.

A economia brasileira alterna, desde 2014, anos de recessão com outros de estagnação (crescimento pífio, em torno de 1%). Tamanha retração se refletiu no avanço devastador do desemprego no Brasil de Bolsonaro.

Segundo o IBGE, eram 20 milhões de desempregados em setembro (14,1 milhões em desemprego aberto e 5,9 milhões por desalento). Se considerado o efeito “migração para a inatividade” (13,7 milhões de pessoas que, em função da crise, saíram da condição de economicamente ativas e passaram à de inativos), o número “real” de desempregados salta para 33,7 milhões (taxa de desemprego “real” de 30,6%).

A título de comparação, em 2014, último ano de governo “normal” do PT, o número de desempregados, incluindo os desalentados, era de 8,2 milhões. Mesmo em maio de 2016, quando ocorreu o golpe que – após 16 meses de sabotagem perpetrada pela burguesia e pela grande mídia – prometia tirar o Brasil da crise, os desempregados, incluindo os desalentados, eram 14,3 milhões.

Qual o resultado? As reformas liberais de Temer/Bolsonaro mais que dobraram o contingente desempregado para 33,7 milhões. E o pior: a taxa de 30,6% de “desemprego real” é uma média, pois, entre a população pobre (notadamente jovens e negros) das periferias, a taxa supera os 50%.

Tamanha taxa de desemprego remeteria a uma taxa de inflação próxima a zero. Mas o que se vê é a disparada dos preços. O IBGE divulgou que o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,31%. Ocorre que a inflação dos alimentos neste período foi de escandalosos 15,94%.

O IPCA apura a taxa de inflação para famílias com renda de até 40 salários mínimos, e, na média ponderada do IPCA, os gastos com alimentos correspondem a 20,7% dos gastos totais. Mas nas famílias com renda de até 3 mínimos, os alimentos muitas vezes superam 50% dos gastos.

Em suma, o povo trabalhador e pobre do Brasil, ao tempo que é assolado pela maior taxa de desemprego de nossa história, convive com uma taxa “real” de inflação de 15,9% a 24,5% (variação do IGP-M, que reajusta aluguéis e tarifas dos serviços públicos).

No momento em que o Brasil vive a segunda onda da covid-19 e alcança 6,7 milhões de infectados e 180 mil mortos, Bolsonaro se mostra leviano e incompetente para adotar as estratégias adequadas para enfrentar a pandemia, inclusive planejar a vacinação.

O seu legado é a economia afundando, o desemprego aumentando, a inflação acelerando e o povo morrendo.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável (UnB), ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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