Nathália Guimarães
Ao realizar um procedimento de fisioterapia durante a internação para tratar uma pneumonia, em 2022, Esther, de 5 anos, sofreu uma crise de tosse com sangramento pelo nariz e pela boca. “O chão ficou lavado de sangue”, conta a mãe, Márcia Alves dos Santos. À época, elas moravam em Sergipe. Desesperada, Márcia resolveu mudar-se para Brasília em busca de tratamento mais efetivo para as sequelas que a covid-19 deixou na menina.
Na capital, Márcia encontrou na Associação Brasileira do Pito do Pango (Abrapango) uma nova chance. “Deus vem me abençoando. Minha filha está tomando canabidiol, a convulsão acabou e sei que o desenvolvimento dela vai ser cada dia melhor”, acredita. “Lá, me disseram que não tinham esperança de que a Esther sairia viva”, relembra.
A história de superação de Márcia da filha ilustra o impacto do trabalho da Abrapango — nome que era dado à maconha na década de 1930, no DF. Após enfrentar um quadro grave de saúde e preconceito, Márcia e o marido, Maurílio Márcio dos Santos, encontraram na cannabis medicinal uma nova chance de vida para a filha. “Ela é uma erva santa, poderosa. Tem uma substância extraordinária, faz um bem que nenhum remédio faz. Eu lutei e estou vendo o desenvolvimento da minha filha. Que as pessoas venham a abrir o olho e a buscar esse remédio para seus filhos”, aconselha o pai.
Márcia Alves dos Santos: “Minha filha está tomando canabidiol, a convulsão acabou e sei que o desenvolvimento dela vai ser cada dia melhor.” Foto: Rian Souza
A Abrapango democratiza o acesso à cannabis medicinal. O tratamento é gratuito ou com desconto para pacientes em situação de vulnerabilidade. Atualmente, o programa atende cerca de 200 pessoas, com suporte médico e social.
“O programa sempre esteve presente nas ações da instituição, mas ganhou novo fôlego neste ano com um processo estruturado de triagem social e o trabalho dedicado de uma assistente social que acompanha cada caso. Isso garante critérios técnicos e transparentes na concessão dos benefícios”, explica a diretora-executiva da Abrapango, Mônica Barcelos.
PRECONCEITO — O clínico-geral Paulo Vinícius Carmo ressalta que o tratamento com cannabis tem se mostrado uma alternativa segura e eficaz para diferentes condições. “Pode ajudar a regular o sono, o apetite, o estresse, a ansiedade e sintomas depressivos. Assim, conseguimos tratar o Transtorno do Espectro Autista (TEA), epilepsias, efeitos colaterais da quimioterapia, Alzheimer, entre outros”, afirma.
Segundo o médico, o tratamento é individualizado e deve ser acompanhado de perto. “Não existe receita única. Cada paciente tem sua resposta, e é nosso papel ajustar a dose, acompanhar e entender como o organismo reage. Muitos pacientes que não respondem aos remédios convencionais encontram na cannabis um caminho para recuperar a qualidade de vida”, explica.
Apesar dos resultados positivos, Carmo destaca que o preconceito ainda persiste. “Mas é um remédio como outro qualquer, com indicações e contraindicações. O diferencial é que, por ser uma substância natural, tende a ter menos efeitos colaterais”.
INCLUSÃO – A assistente social Rafaela Marques, coordenadora do núcleo social da Abrapango, reforça o compromisso da instituição com a inclusão. “Identificamos o paciente, entendemos suas necessidades e democratizamos o acesso de forma uniforme, para que não haja disparidade socioeconômica. O medicamento é caro, e muitas famílias não conseguem arcar com esse valor”, explica.
Mesmo atendendo pacientes de todo o país, Rafaela diz que o maior desafio é a distância. “Atendo gente do Brasil inteiro, de Alter do Chão, no Pará, ao interior do Nordeste. Às vezes, o mais difícil é não poder estar perto. Eu gosto do contato, da conversa, de sentir a história de cada um”, conta.
Saiba +
A associação está abrindo 100 novas vagas no programa de Acolhimento Social. Inscrições no site www.abrapango.ong, na aba “Social”. Após o cadastro, a equipe realiza uma entrevista socioeconômica para avaliar o grau de vulnerabilidade. Os participantes podem receber descontos de 50% a 100% na anuidade (R$ 120 por ano), nos medicamentos (de R$ 390 a R$ 700) e nas consultas médicas (de R$ 250 a R$ 600). O acolhimento tem duração inicial de seis meses, com renovação mediante nova avaliação médica e social.