Cecília Garcia (*)
No segundo aniversário de Brasília, a cidade ganhou sua primeira universidade – a UnB –, em 21 de abril de 1962, no auditório Dois Candangos. Muitos brasilienses, além de estudantes e ex-alunos da Universidade de Brasília desconhecem esses fatos, assim como sabem apenas parcialmente a explicação para o nome da construção, que é o retrato triste de uma época.
A história que se conta é resumida e mostra como a quantidade de mortos durante a construção da nova capital era banalizada: uma referência a dois operários que morreram durante as obras do edifício que integra a Faculdade de Educação. Mas isso está longe de ser um enredo completo.
O prédio, originalmente, é uma homenagem a Alcides da Rocha Miranda, arquiteto responsável pelo projeto que comporta o auditório. Com o acidente, passou a ser também um tributo aos “anônimos” que faleceram dias antes da inauguração.
Ao realizar pesquisas sobre o acidente, é mais fácil encontrar informações sobre a tragédia em si do que sobre os trabalhadores. De acordo com Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), o desastre ocorreu por volta de 13h, no dia 3 de abril de 1962, num canteiro de obras da UnB que era responsabilidade da construtora Martins de Almeida S.A.
O laudo da perícia indicou que as vítimas trabalhavam na escavação de um subsolo, a cinco metros de profundidade, quando houve um desmoronamento da terra ocasionado pelas máquinas de terraplanagem que eram usadas próximas dali. Os “dois candangos” foram soterrados por camadas de terra, pedaços de madeira e ferragens dos andaimes, falecendo no local. Uma terceira pessoa também foi atingida e sobreviveu.
Sobre os homens, pouco se sabe. Precisou de cerca de um mês para que seus dados básicos fossem divulgados, contrariando a informação do reitor da UnB à época de que se tratava de “anônimos”.
Em 5 de maio de 1962, Ari Cunha, em sua coluna no jornal Correio Braziliense, chamou atenção para o apagamento ocorrido e corrigiu a situação. Foi a primeira vez que seus nomes são citados.
Na imagem: “O auditório da Universidade de Brasília se chama ‘2 Candangos’, como homenagem do Reitor aos 2 anônimos que morreram na sua construção. Em homenagem diremos seus nomes: Gildemar Marques, de Bom Jesus, Piauí, 19 anos, e Expedito Xavier Gomes, de Ipu, Ceará, 27 anos”.
Além do nome, idade e naturalidade de Expedito, em agosto de 1962, descobre-se que ele era negro, casado e pai de três filhos. Isso ocorreu quando a viúva Antônia Rodrigues de Souza ingressou judicialmente contra o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) buscando indenização pelo acidente de trabalho que vitimou seu marido. O processo número S3066/62, referente ao caso, pode ser consultado no site do TJDFT.
Sobre o colega de Expedito, também negro, quase não há informações disponíveis. Nem a grafia de seu nome se sabe ao certo. Foram encontrados registros como Gedelmar, Gedeimar e Gildermar. O pesquisador Guilherme Oliveira Lemos, em sua tese de doutorado, conduziu uma investigação mais aprofundada sobre a história, mas também não teve êxito em encontrar mais informações tanto sobre o jovem piauiense como o trabalhador cearense. Até hoje não se sabe mais dados sobre a vítima que sobreviveu.
O caso dos “dois candangos” mostra como os milhares de migrantes, em sua maioria nordestinos e nortistas, que vieram ao Planalto Central em busca de uma vida melhor, eram vistos apenas como ferramentas para o progresso. Seus nomes, o de suas famílias, suas profissões, seus sonhos são condensados dentro de uma expressão genérica demais para abarcar suas individualidades: “candangos”.
(*) Jornalista | Mestre em Comunicação