Diante de uma janela

mmPor ,03/06/2013 às 14:14, Atualizado em 03/06/2013 às 14:14

Estou com febre, mas não importa – porque o outono brasiliense está se despedindo todo vestido de dourado, céu cinza-azulado, bonito como os olhos da Bem Amada. Vento vespertino soprando dos lados de Kamakura (*), a mangueira frondosa esparramada ali diante de minha janela. Pena que o meu amigo sabiá não esteja lá, porque ele …

Diante de uma janela Leia mais »

Estou com febre, mas não importa – porque o outono brasiliense está se despedindo todo vestido de dourado, céu cinza-azulado, bonito como os olhos da Bem Amada.

Vento vespertino soprando dos lados de Kamakura (*), a mangueira frondosa esparramada ali diante de minha janela. Pena que o meu amigo sabiá não esteja lá, porque ele só costuma aparecer de manhãzinha para me acordar com seu canto de criança peralta, letra que tem um verbo indevidamente censurado pelas pessoas mais velhas:

Chover, chover / pra nascer capim / pro boi comer / pro boi cagar/ pro Sabiá esgravatar / chuim, chuim!

Estou com febre, mas não importa – porque acabei de acertar um acordo de cavalheiros com a minha solidão: ela não vai embora de todo, mas em compensação não fica assim tão grudada em mim, exalando saudades de coisas que nunca tive e de coisas que já foram minhas, a exemplo da fé que perdi depois de tê-la encontrado nos pedregosos caminhos da busca, já àquela altura, com os pés descalços cheios de doloridas bolhas, tal qual São Francisco de Assis, de quem o atual papa argentino adotou o nome.

Estou com febre, mas não importa – porque sou um cara rico de inúmeras coisas, inclusive de sonhos a curto prazo, a exemplo do bilhete da megasena que vai correr hoje e dos 14 pontos da loteca que mudarão na segunda-feira o rumo de meu destino, comprar tanta coisa para tanta gente e depois de tentar aprender com um monge budista (lá do Everest) a caminhar no fio de uma navalha, obviamente com as mãos e os bolsos absolutamente vazios para não desequilibrar o corpo e a cabeça.

Estou com febre, mas não importa – porque hoje é sábado, mas amanhã é domingo e estarei de pé outra vez, caminhando com as minhas pernas tortas sob as alamedas arborizadas da minha quadra, a cada minuto cedendo terreno em favor da morte, porém sem ter medo dela.

A cada minuto assumindo a responsabilidade da angústia de ainda estar vivo, a cada minuto me arrepiando de emoção pela sensação maravilhosa de continuar amando a vida, a cada minuto carregando a certeza de que viver é uma dádiva divina, mesmo quando se está sozinho diante de uma janela de apartamento no finzinho de um outono com jeito de primavera.

(*) Kamakura: cidade-templo considerada sagrada pelos japoneses.

Deixe um comentário

Rolar para cima