Uma fila com cerca de 300 entusiastas da cultura japonesa se formou na entrada do Cine Brasília, na noite de quarta-feira (28), para a abertura da Mostra de Cinema Japonês, que este ano mergulha no universo do sobrenatural nipônico. Com o tema “Ayakashi: o Japão das Criaturas Místicas”, o festival segue até domingo (1°) e reúne clássicos que exploram espíritos e lendas que atravessam séculos do imaginário japonês.
Recém-chegado ao Brasil, o embaixador do Japão, Noguchi Yasushi, presente na sessão, destacou a fase que o cinema brasileiro vive. “O Brasil tem vivido um momento de grande destaque. [Os filmes] ‘Ainda Estou Aqui’, premiado no ano passado, e ‘O Agente Secreto’, que recebeu o Globo de Ouro e concorre ao Oscar deste ano, mostram a vitalidade do cinema brasileiro, que se projeta para o mundo”, declarou.
Noguchi destacou ainda o diálogo cultural entre os dois países, lembrando que produções japonesa têm conquistado espaço no Brasil. É o caso de “Kokuho – O Preço da Perfeição”, indicado ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado. O drama, ambientado no universo do teatro kabuki, tem estreia prevista no Brasil para março de 2026.
Em entrevista exclusiva ao Brasília Capital, Noguchi explicou que os filmes trazem um lado menos conhecido do cinema japonês. “Talvez os brasileiros ainda não conheçam muito esse tipo de obra, mas os japoneses gostam bastante desse universo surreal e místico. Os filmes mostram outro aspecto do Japão. Espero que vocês possam desfrutar da diversidade, dos costumes, da cultura e da sociedade japonesa”.
Entre os títulos exibidos, o embaixador disse ter uma preferência pessoal por “A Família Inugami” (1976), dirigido por Ichikawa Kon, que retrata a ruptura do tradicionalismo japonês em meio a disputas por herança, assassinatos e ganância.
ALÉM DO CINEMA – O Brasília Capital também conversou com o pesquisador e professor de língua e cultura japonesa Takashi Yamanishi, que conduziu um debate com o público, após a exibição do longa “O Retorno do Gigante Majin” (1966). “A retratação do sobrenatural no Japão não se restringe apenas aos cinemas. Ela remonta à Era Edo, dos séculos XII e XVIII, presentes nos panfletos, jogos e livros escritos na época. Hoje, vemos um resgate desse imaginário, que foi sendo transformado ao longo do tempo”, explicou.
O pesquisador Takashi Yamanishi (esq.) e o Embaixador do Japão, Noguchi Yasushi, participaram a abertura da Mostra de Cinema Japonês. Foto: Nathália GuimarãesO especialista destaca o termo yōkai – palavra referente ao folclore sobrenatural japonês – que dialoga também com a cultura brasileira. “A retratação do sobrenatural não é algo exclusivo do Japão. E tem pessoas que definem yōkai como um folclore, uma interpretação totalmente possível”.
ESTEREÓTIPO – Fora das telas, o paralelo ganha vida com as obras de Victor Inafuko. O artista de São Paulo representou figuras brasileiras como o Saci, o Curupira e a Mula Sem Cabeça no estilo japonês, como se fossem yōkai. “Sempre existiram pessoas criando mitos para justificar aquilo que está além da compreensão humana”, explicou o pesquisador.
Para Takashi, eventos que aproximam as duas culturas são fundamentais para democratizar o acesso e apresentar facetas que o público não consegue ver dentro da cultura pop japonesa. “Temos um imaginário bastante estereotipado sobre o Japão. Estes filmes mostram facetas que não vemos dentro da cultura pop japonesa. Acho que é fundamental esse trabalho promovido pela Embaixada do Japão, Fundação do Japão e diversas outras entidades. Elas aproximam e democratizam o acesso à cultura para a população do Brasil”, analisa.
PÚBLICO – A estudante de japonês do Centro Interescolar de Línguas (CIL), Vivian Santiago, de 18 anos, moradora do Riacho Fundo II, foi conferir a Mostra para assistir ‘O Retorno do Gigante in’. “Achei o filme muito interessante. É uma ótima forma de aprender sobre as origens e também sobre a cinematografia do Japão”, elogiou.
Vívian Santiago: “É uma forma de demonstrar respeito e interesse pela cultura do Japão.” Foto: Nathália Guimarães
Fã de anime, cosplay e moda alternativa japonesa, Vívian diz que é importante conhecer as camadas menos estereotipadas da cultura. “É uma forma de demonstrar respeito e interesse pela cultura do Japão. Para quem quer viajar, é legal aprender mais sobre a história do lugar”.