Consumo de entorpecentes é preocupante no DF

BSB Capital 29/05/2014 às 11:47, Atualizado em 29/05/2014 às 11:47

Fernando (nome fictício) deu o primeiro gole de bebida alcoólica aos 14 anos. Um tio permitiu que ele provasse sua cerveja. Um ano depois, o adolescente já colecionava momentos constrangedores provocados pelo uso excessivo de álcool. Aos 16 anos, tragou o primeiro cigarro de maconha. Em seguida, veio o interesse pela cocaína. Hoje, aos 18, …

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Fernando (nome fictício) deu o primeiro gole de bebida alcoólica aos 14 anos. Um tio permitiu que ele provasse sua cerveja. Um ano depois, o adolescente já colecionava momentos constrangedores provocados pelo uso excessivo de álcool. Aos 16 anos, tragou o primeiro cigarro de maconha. Em seguida, veio o interesse pela cocaína. Hoje, aos 18, ele afirma que “fumar um baseado” e “cheirar” fazem parte de sua rotina.

O relato do envolvimento precoce com o universo das drogas  não é um caso isolado. Os números mostram que os comportamentos de risco estão cada vez mais presentes na vida dos jovens brasileiros. Dados do 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado  pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostram que, na região Centro-Oeste, 45% dos jovens, com idades entre 14 e 25 anos, têm o hábito de ingerir bebida alcoólica e dirigir.

Maconha

Quando o assunto é o uso de drogas ilícitas, a região onde o Distrito Federal está inserido é campeã. Enquanto a média nacional de usuários de maconha, no último ano, é de 2%, o Centro-Oeste alcança a marca de 9%, sendo que a maioria alega ter adquirido o entorpecente dentro da escola. O consumo de cocaína também é expressivo: 5,8% dos entrevistados fizeram uso da droga em 2013.

Uma explicação possível para o alto uso da cocaína na região seria a proximidade dos estados dessa região com países produtores, como a Bolívia. “Diferentemente da região Sul, que registrou os menores índices de consumo da droga no mesmo período”, explica   a coordenadora do estudo, Clarice Madruga.

Hábito comum

Os resultados encontram ressonância na vivência do estudante Fernando. Segundo ele, boa parte de seus colegas tem hábitos semelhantes aos seus. “Na nossa galera, quase todo mundo fuma ‘um’”, diz. Mesmo conhecendo os riscos, ele garante que ainda não se preocupa com futuro. “Sei que ainda tenho controle, que posso parar quando quiser”, argumenta.

Lei

Apesar de a legislação  proibir  a venda de bebida para menores de 18 anos, o estudante afirma que nunca encontrou dificuldades. “Nunca pediram meu documento. Acho que eles só querem vender e nem devem se preocupar com isso”, relata.

A aquisição de drogas ilícitas, segundo ele, também não é difícil. “Nas festinhas ou em lugares com muitos jovens, quem procura acha”, diz.

 
Pense nisso
 
Dificilmente, um pai ou uma mãe vai conseguir que o seu filho entenda que é preciso parar de usar drogas. Por isso mesmo, é muito mais simples prevenir do que remediar essa situação. E não há outra forma além do diálogo. Essa abertura se cria desde muito cedo, não necessariamente para falar sobre drogas, mas a respeito de qualquer assunto que esteja ligado ao dia a dia da criança. E com isso se constroem os valores. Com   diálogo, somado ao bom  exemplo dos pais, se faz um cidadão de bem.
 
Pais foram “obrigados a aceitar”
 
O levantamento da Unifesp mostra que 503 mil pessoas, entre 14 e 25 anos, já usaram algum tipo de droga ilícita ao longo da vida. É o caso do estudante de Antropologia G., 19 anos, usuário de maconha há mais de um ano. “Bebi pela primeira vez aos 16 anos, e assim que entrei na faculdade comecei a fumar maconha”, conta.
G. observa que o contexto social foi facilitador para o hábito. “Eu bebo e fumo nas mesmas situações. Não que uma coisa leve à outra, mas acontecem nos mesmos momentos”, explica. De acordo com o estudante, os pais sabem do uso da droga, mas, por não saberem como lidar, aceitaram a situação na medida do possível. “Eles não gostam, mas descobriram. Eu falei a verdade e foram obrigados a aceitar”, declara.
 Consequências
 
Consciente dos riscos, o jovem assume que os resultados podem ser graves ao longo do tempo. “Se a pessoa já bebe antes dos 18 anos, quando tirar a carteira de motorista, com certeza, não vai ter a noção de que isso é errado”, pontua. Para o futuro, ele garante que pretende ter uma rotina mais saudável, longe da droga.
Reação em cadeia
De acordo com a coordenadora do estudo da Unifesp, Clarice Madruga, os piores índices estão no Centro-Oeste. “Os resultados são expressivamente mais negativos nesta região. Atrelado a isso estão as dificuldades para tratamento”, explica. Ela salienta que a junção de vários fatores de risco leva a outros comportamentos, como o sexo desprotegido e o envolvimento em brigas. “É uma combinação de diversos fatores. Com certeza, o uso precoce de drogas vai resultar em um adulto inconsequente”, pontua.
 Consciente dos riscos, a estudante Geovana Fernandes, 20 anos, conta que sempre preferiu ficar longe das drogas e evita os comportamentos que podem trazer riscos. Porém, a oferta, segundo ela, é alta e acessível a quem tiver interesse. “A procura é fácil, principalmente  nas festas, mas sei que é uma coisa que não me fará bem”, diz.
De acordo com a estudante, a sua única curiosidade foi com o cigarro: “Experimentei uma vez”, relata. Nas festas, as drogas são ainda mais acessíveis. “Já me ofereceram quando eu tinha 16 anos, mas não aceitei. Tenho medo das consequências”, salienta.
O entrosamento com os pais é, para Geovana, uma forma de conscientizar os jovens desde cedo. “Meus pais sempre me falaram para não chegar perto das drogas”, diz. Na opinião da estudante, o preenchimento do “vazio interior” é um dos principais motivos para a procura. “Eles querem ser aceitos e vistos e, infelizmente, acham que a droga é um meio para isso”.
O estudante Pedro Henrique, 19, também prefere ficar longe das drogas, mas garante que o acesso nunca foi tão facilitado. “Na universidade, a maioria fuma maconha. Como os usuários não são invasivos, não me incomoda tanto”.
Fumante, o estudante Leandro Martins, 19 anos,  afirma que apesar de não usar drogas ilícitas, em seu círculo de amizades o uso de entorpecentes é  comum. “Eu não uso porque sei que faz mal, mas têm muita gente que usa”, conta.
 
Estudos ao redor do mundo trazem conclusões diversas a respeito do uso da maconha. Pesquisa recente feita nos Estados Unidos mostrou que  uso esporádico pode afetar regiões cerebrais relacionadas ao controle das emoções e à motivação. O estudo foi publicado no periódico  The  Journal of Neuroscience.
Situação se complica entre as mulheres
 
Embora a maconha seja a droga ilícita mais consumida entre os jovens de 14 a 25 anos, a cocaína é o entorpecente preferido entre as entrevistadas do sexo feminino, segundo resultados da pesquisa. Apesar de ser ainda mais nociva para as mulheres, a pesquisadora Clarice Madruga revela que a motivação por entorpecentes estimulantes se dá em razão de dois fatores: “eles inibem o apetite e dão uma falsa sensação de felicidade”.
De acordo com a psicóloga, “esse é um fenômeno raro em outros países porque a maconha é sempre a droga mais popular”, explica. Ela alerta que a substância é altamente nociva. “Não só da cocaína, mas o Brasil tem o maior número de usuários de estimulantes e inibidores de apetite do mundo”, relata.
A pesquisadora alerta que as mulheres têm ainda mais dificuldade em abandonar o vício. “Usuários do sexo feminino encontram muitos problemas para abandonar as drogas. Provavelmente isso está ligado ao fato de serem ainda mais propensas ao desenvolvimento de depressão”, pontua.
Papel da Família
Para a especialista em saúde da criança Miriam Schenker, o âmbito familiar tem um efeito potencialmente forte e durável para o ajustamento do jovem. “O vínculo e a interação familiar saudável servem de base para o desenvolvimento pleno das potencialidades”, explica.  “Inúmeros estudos mostram que os padrões de relação familiar, a atitude e o comportamento dos pais e irmãos são modelos importantes para os adolescentes”, completa.
Ela destaca que os adolescentes que querem começar ou aumentar o uso de drogas procuram colegas com valores e hábitos semelhantes. No entanto, ela frisa que a questão não pode ser vista de forma simplista, pois outros fatores, como núcleo familiar e outros fatores sociais, contribuem para o aumento da probabilidade.
“A disponibilidade e a presença de drogas no círculo de convivência têm sido vistas como facilitadoras do uso de drogas por adolescentes, uma vez que o excesso de oferta naturaliza o acesso”, conclui.
pontodevista
 
De acordo com a psicoterapeuta Mariana de Castro, o uso precoce de drogas, incluindo as bebidas alcoólicas, pode causar diversos danos à memória, por agir principalmente no hipocampo. “Com o tempo, a memória vai sofrendo danos, e o índice de aprendizado e motivação também”, pontua.
Segundo ela, os jovens costumam experimentar o álcool e as drogas para “se sentirem mais extrovertidos e corajosos”, afirma. Ela explica que o a álcool “bloqueia a inibição e com isso a pessoa faz coisas que não faria em um estado normal”. E é exatamente neste ponto que moram os riscos, afirma a especialista.
Segundo Mariana, não há dose recomendada para a ingestão de entorpecentes. “Usar drogas, especialmente para os adolescentes, é muito arriscado, afinal, eles estão passando pelo período de crescimento, cujo todo o organismo está em desenvolvimento”, alerta a estudiosa.

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