Conheça a nova rotina do eletricista preso ao roubar carne para o filho

BSB Capital 19/06/2015 às 8:03, Atualizado em 19/06/2015 às 8:03

Depois de ser flagrado roubando num supermercado e ter a fiança paga pelos policiais, Mário Lima trabalha como operário, convive com a desconfiança alheia e comemora a chance de se ressocializar antes mesmo de cumprir a pena pelo que cometeu   “Sorri para a foto, Friboi”, gritam os colegas de trabalho do eletricista Mário Ferreira …

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20150618224548165941eDepois de ser flagrado roubando num supermercado e ter a fiança paga pelos policiais, Mário Lima trabalha como operário, convive com a desconfiança alheia e comemora a chance de se ressocializar antes mesmo de cumprir a pena pelo que cometeu
 

“Sorri para a foto, Friboi”, gritam os colegas de trabalho do eletricista Mário Ferreira Lima, em alusão ao crime cometido por ele há pouco mais de um mês. Agora empregado, o homem preso ao roubar 7kg de carne de um supermercado e que teve a fiança paga por agentes da 20ª Delegacia de Polícia (Gama Oeste) (leia Memória), vive uma rotina na qual existem duas realidades opostas. Enquanto aguarda o desfecho jurídico do inquérito, colhe os benefícios de ter saído de uma situação de miséria, mas sem escapar do julgamento moral decorrente do crime que cometeu e que será analisado pelos tribunais.

Em poucos dias, Mário enfrentou uma montanha-russa particular, que alcançou dimensão inimaginável. Mais de um 1,5 milhão de pessoas foram alcançadas pela notícia apenas por meio da página do Correio no Facebook. Flagrado como ladrão, Mário passou à condição de pobre coitado, virou celebridade, ganhou emprego e voltou a ser massacrado nas redes sociais quando vieram à tona outras três acusações de crimes semelhantes. Ele não fala sobre antecedentes, nega que seja um ladrão contumaz.

Parte importante dessa história, os policiais que decidiram fazer a vaquinha para livrá-lo da cadeia e que não tinham conhecimento de outros registros de ocorrência deixam claro que em nenhum momento o pagamento da fiança tinha a intenção de isentá-lo do crime. “Ele ainda vai ser convocado pela Justiça para responder pelo delito. O que vimos foi uma necessidade física, dele e do filho. Naquele momento, a nossa intenção era exclusivamente suprir uma carência, sem qualquer intenção de eximi-lo”, salienta um dos agentes que participaram da história, Francisco Sena. Apesar disso, ele admite que ficou desapontado quando soube das acusações anteriores ao caso do mercado de Santa Maria. “Eu, sinceramente, espero que esse rapaz tenha alcançado o objetivo de ter o seu emprego e, se ele tinha essa prática corriqueira, que tenha mudado de vida e pense em ter um futuro diferente.”

De fato, o ato de boa vontade dos policiais deu a ele uma nova chance. Em um país no qual a taxa de reincidência criminal chega a 70%, Mário teve sorte de ganhar um emprego formal. “Acordo às 6h e faço o café da manhã e o almoço do meu filho. Às 7h, estou pronto para trabalhar e vou dormir, no máximo, às 21h. O corpo tem de descansar para aguentar.” Até ser julgado, ele segue dando um sorriso amarelo sempre que o grito de Friboi ecoa pela obra onde trabalha atualmente. O estigma não chega a ser uma pena severa diante de sua nova condição.

Dignidade
Ele confessa que, após a repercussão do caso, recebeu tantas doações que teve de repassar algumas para instituições de caridade. Garante que a solidariedade veio até de outros países e que a quantidade de mantimentos que recebeu daria para abastecer sua despensa até o fim do ano. “A minha vida mudou totalmente, ainda mais depois do emprego. Tendo essa oportunidade e recebendo salário e vale-transporte, estou recuperando a minha dignidade para conseguir sustentar o meu filho”, comemora Mário.

A satisfação dele é visível, mas hoje, longe de despertar a comoção de antes, ainda causa desconfiança. Ednaldo Belém Silva, gerente do supermercado de onde o eletricista furtou a carne, acredita que Mário acabou levando vantagem com toda a situação. “Já vieram me dizer que ele fazia isso há muito tempo, que iria vender a carne que roubou no supermercado. Parece que ele está feliz depois de ter feito o que fez. Espero que esse trabalho, pelo menos, faça com que ele veja o que estava errado na sua vida.”

Ressocialização
Mário vive uma situação inusitada. Goza de um privilégio raro até mesmo para quem já cumpriu pena. Ganhou o direito de ressocialização antes mesmo de ser julgado e de ter pago a sua dívida com a sociedade. A declaração do dono da construtora que lhe ofereceu emprego é prova disso. “Se a pessoa está recuperada, por que não fazer isso? Claro que vai depender do crime que foi cometido, mas, no caso dele, não vi problema nenhum em oferecer o trabalho”, diz Merdan Gois.

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