O queniano Sabastian Sawe venceu, no domingo (26), a Maratona de Londres em 1h59min30s e se tornou o primeiro atleta a completar uma prova oficial abaixo de duas horas, em um feito histórico impulsionado também por uma nova geração de calçados de alta tecnologia.
Para alcançar o novo recorde mundial, Sawe sustentou ritmo médio inferior a 2min50s por quilômetro e fechou a prova com regularidade, superando a marca anterior de Kelvin Kiptum (2h00min35s).
A competição em Londres teve nível técnico sem precedentes. O etíope Yomif Kejelcha cruzou a linha em 1h59min41s, também abaixo das duas horas, enquanto o ugandense Jacob Kiplimo completou o pódio com 2h00min28s. Pela primeira vez, múltiplos atletas correram abaixo do antigo recorde mundial na mesma prova. No feminino, a etíope Tigst Assefa também se tornou a mais rápida da história, com tempo de 2h15min41s.
Além da performance quase sobrenatural dos atletas, um elemento ganhou protagonismo: o “supertênis” Adizero Adios Pro Evo 3, da Adidas. O modelo, lançado dias antes da prova, pesa apenas 97 gramas e é cerca de 30% mais leve que a versão anterior, com ganho estimado de 1,6% na economia de corrida.
O calçado utiliza espuma de nova geração, placa de carbono e estrutura ultraleve inspirada em materiais de alta performance. “O grande diferencial é que ele é muito leve e confortável”, afirmou Sawe após a prova. Tigst Assefa foi na mesma linha. “Os tênis me permitem correr mais rápido”, revelou a campeã.
A própria Adidas ressaltou o objetivo do projeto. “Nossa meta era atingir dois dígitos na balança com desempenho superior a qualquer versão anterior”, afirmou Stephan Scholten, vice-presidente de produto da marca alemã.
Era dos supertempos
Os índices de Londres demonstram que a tecnologia passa a ter um peso maior no rendimento de atletas de alta performance. O fenômeno encontra paralelo histórico na natação.
De 2008 a 2009, trajes tecnológicos de poliuretano, material que favorecia a aerodinâmica do atleta na água, alteraram drasticamente os resultados. Nos Jogos de Pequim-2008, Michael Phelps venceu os 100m borboleta com 50s58, enquanto em 2009, no Mundial de Roma, Cesar Cielo estabeleceu o recorde mundial dos 100m livre com 46s91, marcas impulsionadas pelo uso dos chamados “supermaiôs”.
Na mesma competição, a alemã Britta Steffen quebrou o recorde dos 100m livre feminino com 52s07. Ao todo, mais de 40 recordes mundiais foram superados naquele período, o que levou à proibição dos trajes pela extinta Federação Internacional de Natação (FINA), atual World Aquatics, em 2010.
O boom parece ter chegado agora às pistas, com um novo patamar de desempenho que une preparação física, estratégia de prova e inovação tecnológica. Especialistas apontam que correr abaixo das 2h, antes considerado limite fisiológico, passa a integrar o campo das marcas possíveis em competições oficiais.
Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre regulamentação e equilíbrio competitivo. O feito de Sawe consolida essa mudança. Mais do que um recorde, a marca de 1h59min30s simboliza o início de uma nova era na corrida de longa distância.