Carta de retorno para Alice

BSB Capital 05/09/2015 às 17:00, Atualizado em 05/09/2015 às 17:00

E por falar de amor sem dor Querida Alice, seus óculos ficaram sobre a mesa da sala, e eu desejei profundamente que isto fosse um sinal de que você não houvesse partido. Mas, conforme os dias vêm passando, eles se juntam com as suas roupas abandonadas na gaveta, fazendo a prova certa de que você …

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E por falar de amor sem dor

Querida Alice, seus óculos ficaram sobre a mesa da sala, e eu desejei profundamente que isto fosse um sinal de que você não houvesse partido. Mas, conforme os dias vêm passando, eles se juntam com as suas roupas abandonadas na gaveta, fazendo a prova certa de que você me deixou.

Você partiu sem cumprir nossos sonhos. Partiu, me deixando sozinho com os compromissos de nós dois. O amor nunca é um fim apenas consigo mesmo, não parte como que sai pela porta na calada da noite sem fazer despedida. Antes, ele quebra os porta-retratos nas estantes. Antes, ele arranca as cortinas, rabisca as paredes, deixa gravado com teu batom no espelho.  Avisa que partiu. Põe em desordem para que nos faça arrumar a bagunça das dores que ele parte sem carregar.

Eu venho dividindo o sofá com as tuas lembranças. Ainda coloco dois pratos sobre a mesa. Separo os teus talheres. Eu sei que você não vem, mas eu ainda me preparo à sua espera. Eu perdi a tua companhia; não abandonei o desejo de te encontrar.

Há cinzas por todos os cantos, não há mais sol nem flores que compensem olhar pela janela. A vida esfriou, tudo se calou, mas eu ainda ouço o barulho dos teus saltos subindo as escadas para o segundo andar. Eu sei, Alice, as recordações que ficam devem ser suficientes para continuar. Mas, não há separação que não machuque as nossas esperas, não há compreensão que diminua o vazio que ficou no nosso lar.

O amor que a gente vive nos acompanha para sempre, mas não há amor lá de trás que preencha a ausência do teu lugar. Às vezes, o amor parte num sopro, nos pega no desaviso, manobra em segredo a sua partida sem nem nos dar tempo de questionar.

Não foi assim com a gente. Tive a oportunidade de me despedir de você a cada momento da sua saída, pude dividir contigo cada apunhalada das dores do destino na tua saúde fragilizada. Vi você se afastando, dia após dia, mesmo sabendo que não queria me abandonar.

Você partiu, voou na madrugada silenciosa de uma quinta-feira, ainda que eu esteja ensurdecido do quanto o silêncio da morte pode gritar. Eu não pude ir com você. Não posso mais te proteger, não posso mais ser o anjo que beija a tua face, não posso mais defender as tuas lágrimas, segurar os teus medos. Não posso mais ouvir o que você tem a denunciar.

Eu não sabia o quanto doía o alívio de ver cicatrizadas as suas feridas, quando perder o teu sorriso foi o preço que a vida me fez pagar. Agora não você não sente mais dores, Alice. Eu as guardei comigo, sufocadas, para que você pudesse descansar.

Eu só queria que você soubesse que eu ainda estou aqui, discutindo com a vida a sua espera. Eu sei que você não vem e agora só me resta escrever esta carta, que você talvez nunca possa ler. Afinal, os teus óculos ainda estão aqui, te esperando chegar para o jantar.

Com o amor que você não pode mais corresponder. Fique em paz.

 


Eu que parti, pode avisar


Sou o cara para você


Quero alguém que me namore


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