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Artigo

Bastante ou bastantes?

  • Elias Santana
  • 08/12/2017
  • 17:23

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Nossa língua é permeada por muitas formas pouco usuais, que chegam a soar de maneira estranha aos nossos ouvidos – mesmo que gramaticalmente corretas. Por isso, é fundamental estudarmos português, a fim de que possamos reconhecer a maior quantidade de variedades, uma vez que isso nos torna mais habilitados a entender o mundo ao nosso redor. Hoje, falaremos sobre duas palavras: bastante e bastantes.

Analise a frase abaixo:

  • Ontem comemos muito.

Perceba que o vocábulo “muito” funciona como um intensificador da palavra “comemos”, que é um verbo. Morfologicamente, o que circunstancia a semântica de um verbo é conhecido como advérbio (“muito” é, portanto, um advérbio de intensidade). Os vernaculistas afirmam categoricamente que esta classe gramatical é invariável, ou seja, não admite variações em gênero ou número. Existe a possibilidade de trocar “muito” por “bastante” sem oferecer qualquer alteração à correção gramatical. A oração então seria ontem comemos bastante. Nesse caso, necessariamente, a palavra sublinhada deve ficar no singular.

Sabemos que o advérbio pode fazer referência também a adjetivos ou advérbios (além do verbo). Por isso, são possíveis construções como

  • Elas são muito/Elas são bastante carinhosas.
  • Eles moram muito longe. / Eles moram bastante longe.

Desde que “bastante” mantenha-se no singular.

Agora, considere a seguinte construção.

  • Muita gente fala sobre política.

A palavra “muita” é responsável por acompanhar o substantivo “gente”, indefinindo-o. Por isso, “muita” é classificada como pronome indefinido adjetivo. Esta classe gramatical sempre estabelece concordância com o substantivo a que se refere. Em outras palavras, se “gente” é feminino e plural, emprega-se “muita”, por ter igual flexão. Se quisermos, podemos reescrever a mesma sentença assim: bastante gente fala sobre política.

No entanto, se trocarmos “gente” por “pessoas”, qual será o resultado? Uma possibilidade é muitas pessoas falam sobre política, mas outra, pouco comum, também é gramaticalmente correta: bastantes pessoas falam sobre política. Detalhe: “bastante” só admite flexão em número, e não em gênero.

Em resumo: se bastante for um advérbio (referência a verbos, adjetivos e advérbios), deve permanecer no singular, por ser invariável; se bastante for pronome indefinido adjetivo (referência a substantivos), é possível que seja empregado tanto no singular quanto no plural – a depender da flexão do substantivo a que se refere!

Se estudarmos carinhosamente o nosso idioma, procurando a lógica que há nele, podemos compreendê-lo mais facilmente!

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