Atrás da Bósnia

Julio MiragayaPor , (*)16/12/2020 às 13:00, Atualizado em 16/12/2020 às 13:06

Brasil despenca para o vexatório 84º lugar no ranking de IDH do mundo

A Bósnia é um pequeno país dos Balcãs, que integrou a antiga Iugoslávia, e que foi recentemente devastado por uma guerra civil. Constitui, junto com a Albânia, a Macedônia do Norte, a Armênia, a Sérvia, a Geórgia e a Ucrânia (os três últimos também recentemente assolados por guerras civis), o grupo de países com pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Europa. Pois o PNUD divulgou, na terça-feira (15), que, em 2019, todos esses países possuíam IDH superior ao do Brasil.

O IDH apura a renda per capita, expectativa de vida e acesso à educação, e é o principal indicador da qualidade de vida de um povo. O Brasil, com IDH de 0,765, ficou no vexatório 84º lugar no mundo, conseguindo a proeza de estar abaixo de países como Cazaquistão, Sri Lanka, Omã e Peru. O Brasil ficou acima, basicamente, dos países africanos, do subcontinente indiano e dos mais miseráveis da América Latina.

É importante observar que o País vinha avançando razoavelmente neste indicador, saltando de 0,651 em 1995 para 0,727 em 2010 e para 0,756 em 2015, ficando em 75º lugar no ranking mundial. Mas, a partir do golpe de 2016, que abriu caminho para a implantação das reformas liberais, não só a economia estagnou, mas também o IDH, que subiu pífios 0,09 pontos, fazendo o país cair nove posições no ranking mundial. E certamente cairá mais neste ano catastrófico de 2020.

O quadro piora ainda mais quando observamos o indicador de concentração de renda (índice de Gini), no qual o Brasil ficou em 181º no ranking, só a frente de países como África do Sul e Namíbia, onde vigorava o apartheid racial (e social). Se considerada a diferença entre a renda apropriada pelo 1% mais rico versus os 50% mais pobres, o Brasil (onde essa diferença é de 100 vezes), torna-se o vice-campeão mundial, ficando abaixo apenas do Catar, monarquia absolutista do Oriente Médio.

Por aqui, o 1% se apropria de cerca de 30% da renda total, enquanto os 50% mais pobres ficam com 15%. Deve-se ressaltar que a diferença real é ainda maior, pois a renda dos mais ricos é sabidamente subdeclarada. E em relação à riqueza acumulada, a diferença entre os dois estratos é superior a 300 vezes.

Se é fato que a qualidade de vida do povo e a concentração da renda pioraram a partir de 2016 com as reformas liberais de Temer e Bolsonaro, isso não quer dizer que a situação anterior era confortável, ou seja, trata-se de um problema estrutural, que nem os inegáveis avanços sociais nos governos Lula e Dilma conseguiram eliminar ou mesmo mitigar de forma expressiva.

Na raiz do problema está o sistema tributário, fortemente regressivo: no Brasil, tributa-se os rendimentos do trabalho, a produção e o consumo, e isenta-se os ganhos de capital e a riqueza. Em suma, sem uma mudança do modelo tributário, continuaremos ladeira abaixo.

Ah, sim. Cuba e Irã, dois países massacrados pelo boicote econômico norte-americano e tão criticados pelos “amarelinhos”, ficaram 14 posições acima do Brasil no ranking do IDH. 

*Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável e ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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