Júlio Miragaya (*)
A agressão dos EUA e de Israel contra o Irã e o Líbano fez a atenção da mídia mundial “esquecer” a Guerra entre Rússia e Ucrânia/OTAN. A citação à Organização do Tratado do Atlântico Norte se faz óbvia, pois a guerra iniciada há mais de 4 anos só não foi ainda vencida pela Rússia em razão das centenas de bilhões de dólares em armamentos por ela fornecidos à Ucrânia. Embora a grande mídia trate a ocupação do leste e sul da Ucrânia como mero ato expansionista russo, a questão é muito mais complexa, envolvendo o tratamento dispensado a minorias étnicas e linguísticas em estados binacionais.
São vários exemplos: a luta dos francófonos de Quebec, no Canadá, e as rusgas entre valões e flamengos na Bélgica. Bascos e catalães na Espanha, corsos na França e curdos na Turquia, Irã e Iraque, recorreram às armas na luta por seus direitos. A união de sérvios, croatas, eslovenos e bósnios em um único Estado também resultou em guerra. O conflito na Ucrânia se agudizou após sua independência com o fim da União Soviética em 1991, envolvendo divergências quanto às relações do País com suas duas potências vizinhas, a Rússia e a União Europeia (UE).
Em 2006, a vitória do pró-russo Viktor Yanukovytch foi contestada pela chamada Revolução Laranja, movimento estimulado pelos EUA e UE, que levou o Supremo Tribunal a convocar novas eleições, na qual Viktor Yushchenko, pró-Ocidente, venceu Yanukovych. Na eleição seguinte, em 2010, Yanukovytch voltou a vencer, agora por margem incontestável (de 70% a 94% dos votos válidos nas dez divisões administrativas do sul e do leste, de maioria russa).
Mas, no final de 2013, uma nova onda de protestos (Euromaiden), igualmente incensada pelos EUA/UE, levou a conflitos ainda mais violentos, com dezenas de prédios públicos sendo invadidos e incendiados por ativistas pró-Ocidente, resultando em mais de 100 mortos entre manifestantes e policiais. Em 21 de fevereiro de 2014, sob intensa pressão, Yanukovytch foi destituído pelo parlamento ucraniano.
O conflito se agravou quando o parlamento, de forma provocativa e irresponsável, aprovou um projeto de lei revogando o status do russo como língua oficial do Estado. Tal ação provocou manifestações nas regiões predominantemente de língua russa. Em 16 de março o governo da Crimeia organizou um referendo em que sua população (80% de língua russa) votou pela anexação à Rússia. Em abril, a população da região do Donbass proclamou a Repúblicas Populares de Donetsk e de Luhansk.
A repressão do governo ucraniano se intensificou e, em total desrespeito ao Protocolo de Minsk, o governo chegou a restringir a edição de livros e jornais e a exibição de filmes e programas de TV no idioma russo. Com os frequentes bombardeios do exército ucraniano sobre cidades do Donbass, Putin ordenou a invasão em fevereiro 2022.
Se é óbvio que a Ucrânia ainda não foi derrotada pelo apoio da OTAN, também parece óbvio que o desfecho da guerra não resultará no restabelecimento do território ucraniano dentro das fronteiras de fevereiro de 2022. Por uma razão simples: boa parte dessas fronteiras foi fixada de forma artificial após a Revolução Russa de 1917.
A rigor, nos seus 603 mil Km² subsistem três Ucrânia. A original surgiu entre 1649 e 1654 pelas terras que compunham o Hetmanato Cossaco (margens esquerda e direita do Dnieper) e o Sich Zapozhizia. Essa área compreende os oblasts (estados) no centro do País, no médio e alto Dnieper, e possui 197 mil Km² (33% do total) com 13,7 milhões de habitantes.
A “segunda” Ucrânia é a formada pelos oblasts ocidentais, de regiões históricas como a Galícia, Volínia, Rutênia, Bucovina Setentrional e oeste da Polésia e da Podólia, regiões de população majoritariamente ucraniana, mas que estiveram sob domínio da Polônia, Hungria e Romênia até a 2ª Guerra Mundial. Possui 158 mil Km² (26%) e é habitada por 11,2 milhões de pessoas. É a Ucrânia mais inclinada para o Ocidente.
A terceira é a porção oriental e meridional, conquistada pelo Império Russo em sucessivas guerras contra o Império Otomano. Compreende as regiões históricas da Táurida e Yedisan (que formavam a Nova Rússia) e a Sloboda Ucânia. Nelas os russos fundaram cidades e estimularam os camponeses ucranianos a emigrar para os campos desocupados pelos tártaros. Por orientação de Lênin, foi cedida pelos bolcheviques em 1921 à nascente República Socialista da Ucrânia, assim como a Crimeia, cedida por Krushev em 1954. Russos étnicos eram cerca de 40% até 1991 e a língua russa é majoritária, especialmente nas cidades. É a maior e mais rica região do País, com 248 mil Km² (41%) e 18,8 milhões de habitantes (44% do total).
De seus 9 oblasts, a Rússia ocupou militarmente 5: Luhansk, Donetsk, Zaporizhia, Kherson, Crimeia e a cidade de Sebastopol (os outros quatro, Kharkiv, Dnipropetrovsk, Mykolaiv e Odessa, não foram reivindicados). Mas é um equívoco a Rússia incorporar esses oblasts a seu território, pois lá os ucranianos são muito numerosos.
O ideal seria a Ucrânia permanecer com suas porções central e ocidental, integrando a UE, e as áreas russófonas constituírem um novo país. Mas essa hipótese só a história nos revelará.
(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia