“Aprisionar os menores de 18 anos não vai fazer a violência diminuir”, diz ex-detento

bsbcapitalPor ,30/06/2015 às 11:41, Atualizado em 30/06/2015 às 11:41

Nesta terça-feira (30), depois de 20 anos, a Câmara dos Deputados vota a redução da maioridade penal: a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93 modifica de 18 para 16 anos a idade mínima para autores de crimes considerados graves. David Erick Cursino tem 21 anos e é estudante de Direito. O semblante dele é calmo, …

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David Erick, estudante de Direito do UniCeub e ex-detento. Foto: Patrícia Fahlbusch
David Erick, estudante de Direito do UniCeub e ex-detento. Foto: Patrícia Fahlbusch

Nesta terça-feira (30), depois de 20 anos, a Câmara dos Deputados vota a redução da maioridade penal: a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93 modifica de 18 para 16 anos a idade mínima para autores de crimes considerados graves.

David Erick Cursino tem 21 anos e é estudante de Direito. O semblante dele é calmo, o sorriso é tímido, o tom de voz é suave. Aluno dedicado e participativo, David prefere o silêncio quando o assunto é a redução da maioridade penal. O motivo: medo do preconceito. O passado não tão distante traz recordações que ele faz questão de não lembrar, mas que sempre estarão presentes. David, aos 17 anos, foi apreendido acusado de assalto a mão armada. Passou 10 meses cumprindo medida socioeducativa, tempo que ele garante que o fez refletir sobre o que não gostaria de ser na vida, um criminoso.

“Quando eu era mais novo eu queria ser atleta de futebol, mas nunca tive o apoio da minha família e acabava matando aula para poder jogar bola. Também cobiçava coisas que não tinha dinheiro para comprar, como carros. Passei a roubar. Nunca pensei que pudesse ser apreendido, mas aconteceu. Chegaram a me falar que em dois ou três meses eu estaria livre de novo, passei 10 meses em uma unidade para menores infratores. Vivenciei muitas coisas ruins lá dentro. Havia madrugadas frias e chuvosas que éramos colocados algemados no pátio como forma de punição. Essas instituições não ressocializam os menores, muitos saem mais revoltados e violentos do que quando entraram. Só mesmo quem tem força de vontade, o apoio da família, e quer deixar a criminalidade consegue seguir novo caminho”, afirma David.

Na unidade o jovem buscava se envolver em atividades produtivas: a leitura e os estudos eram prioridade e ele chegou a tirar o primeiro lugar em um concurso de redação entre os internos. A música também fazia parte da rotina. David tocava violino sem nunca ter sido ensinado por ninguém a usar o instrumento. “É um dom”, garante. Ele também gosta de escrever e pensa em um dia passar para um livro a sua ‘volta por cima’.

“Sempre gostei de ler assuntos relacionados ao Direito, mesmo sem entender bem a linguagem do tema. Por isso me interessei pelo curso. Consegui ingressar na faculdade graças ao Fies [Fundo de Financiamento Estudantil], e pretendo me especializar em Direito Constitucional”, diz David Erick, que vive com dois irmãos, de 8 e 9 anos de idade, e com a mãe, que logo que o rapaz deixou o sistema socioeducativo ela acabou tendo que ser internada em uma clínica para tratamento de depressão. David não sabe quem é seu pai.

Quando o assunto é a redução da maioridade penal no Brasil, o estudante de Direito se cala na turma por ter opinião contrária a da maioria dos colegas. David garante que o caminho para diminuir a criminalidade no país não é por meio da prisão.

“Eu estive lá, sei como as coisas funcionam no sistema socioeducativo. Aprisionar os menores de 18 anos não vai fazer a violência diminuir. Aquele lugar me fez pensar sobre quem eu era e quem eu gostaria de ser, eu pude me conhecer melhor. Hoje eu penso muito mais nas minhas atitudes, enxergo as coisas de forma diferente. Algumas pessoas ainda não acreditam que eu possa ter mudado depois do que passei, mas eu mudei sim, eu mudei porque eu quis, porque tive forças e principalmente porque eu acreditei que poderia ser alguém diferente e melhor. Eu consegui”, finaliza o David.


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