Em assembleia na quarta-feira (22), acionistas do Banco de Brasília aprovaram a entrada de até R$ 8,8 bilhões na instituição, valor calculado para cobrir perdas específicas deixadas pelas operações com o Master e evitar que o problema avance para o dia a dia de quem depende do BRB. Hoje, o capital do banco é de cerca de R$ 2,3 bilhões e pode chegar a R$ 11,1 bilhões após o reforço.
Na prática, isso impede um efeito cascata. Sem esse dinheiro, o banco teria dificuldade para manter o mesmo nível de empréstimos, financiamentos e crédito consignado. Um exemplo: servidores do GDF que contratam crédito pelo BRB ou pequenos empresários de Taguatinga que usam limite para manter o fluxo de caixa poderiam enfrentar juros mais altos ou restrição de crédito. O aumento de capital atua exatamente para evitar esse cenário.
O problema que levou a essa situação começou antes. Nos anos de 2024 e 2025, o BRB comprou cerca de R$ 12 bilhões em ativos ligados ao Master, controlado por Daniel Vorcaro. Parte dessas carteiras depois se mostrou sem lastro ou com alto risco de recuperação, gerando perdas estimadas em até R$ 8 bilhões.
A situação se agravou no fim do ano passado, quando o Banco Central liquidou o Master, e ao longo de 2026, com investigações da Polícia Federal sobre irregularidades nessas operações.
Desde o dia 16 de abril, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, está preso sob suspeita de favorecer negócios com o Master em troca de vantagens indevidas, incluindo o recebimento de apartamentos de luxo em Brasília e em São Paulo.
Diante desse cenário, o BRB precisou separar o que é prejuízo do que continua saudável dentro do banco. Um dos movimentos foi transferir cerca de R$ 15 bilhões em ativos problemáticos para um fundo gerido pelo mercado, permitindo que o banco volte a focar nas operações tradicionais, como crédito imobiliário e financiamento local.
“O PIOR JÁ PASSOU” – O aumento de capital aprovado agora entra como peça central nessa reorganização. Ele será bancado principalmente pelos próprios acionistas, com destaque para o Governo do Distrito Federal, que tem mais de 56% do banco e pode precisar aportar até R$ 5 bilhões para manter sua participação.
O presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, resumiu o momento de forma direta. “O pior já passou”. Segundo ele, o próximo passo é colocar o dinheiro de fato no caixa até 29 de maio e concluir negociações para levantar cerca de R$ 6,6 bilhões via empréstimos e outras estruturas financeiras.
Souza detalhou que esse dinheiro pode vir, por exemplo, de operações com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uso de imóveis públicos como garantia e até venda de participações do próprio banco, medidas concretas para transformar o plano aprovado em dinheiro disponível.
SEM PRIVATIZAÇÃO – Do lado do GDF, a governadora Celina Leão tem insistido que a crise foi pontual e que o banco continuará público. Em entrevista à CNN Brasil, garantiu que o BRB “não será privatizado” e que o episódio foi uma situação específica, não estrutural, sinalizando que a estratégia é recuperar o banco, e não reduzir seu papel no DF.
Isso importa porque o BRB não é um banco qualquer para quem vive em Brasília e no Entorno. É a partir dele que há pagamento de salários de servidores, financiamento de imóveis, atendimento a comerciantes e participação em projetos culturais e esportivos. Quando há risco financeiro, o impacto pode chegar rapidamente à economia regional, desde crédito mais caro até menos investimento.
Com o aumento de capital aprovado, o cenário começa a mudar. Ainda há etapas pela frente e o desfecho completo do caso BRB-Master depende de ajustes e decisões adicionais. Mas, pela primeira vez desde o início da crise, o caminho aponta para estabilidade.