A descoberta por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) da molécula laminina na placenta (órgão temporário essencial ao desenvolvimento da vida) levou à criação de um remédio experimental que pode transformar o tratamento de lesões de medula espinhal. Para viabilizar a inovação, a UFRJ firmou parceria com o laboratório nacional Cristália e desenvolveu o medicamento polilaminina.
No início de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dos estudos clínicos para avaliar segurança, eficácia, dosagem e efeitos colaterais. Apesar da repercussão nas redes sociais, especialistas alertam contra expectativas exageradas. “A história da medicina está cheia de tratamentos que pareciam promissores e frustraram expectativas quando passaram pelo crivo dos testes”, afirma Carlos Orsi, diretor do Instituto Questão de Ciência (IQC).
A polilaminina surge como alternativa às terapias com células-tronco, método caro e com resultados limitados. Por isso, o avanço brasileiro atrai atenção internacional. Desde 2018, UFRJ e Cristália testaram o tratamento em seis pacientes com lesão medular nível A, caracterizada por perda total da função motora. Cinco evoluíram para o nível C, com recuperação parcial.
O caso mais emblemático é o do bancário Bruno Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente de trânsito aos 23 anos. Após receber o fármaco nas primeiras 24 horas, começou a recuperar movimentos gradualmente. “No primeiro mês, eu consegui mexer o dedão do pé”, contou à revista Veja. Anos depois, voltou a caminhar normalmente.
Segundo a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, que pesquisa a laminina há 25 anos, a molécula forma uma estrutura tridimensional essencial à sobrevivência celular e à migração de neurônios. “Com ela, conseguimos efeito duplo: proteger os neurônios que estão ali e estimular o surgimento de novas unidades”, afirma.
TESTES — Modificada em laboratório, a substância agora precisa passar por todas as etapas regulatórias. Na primeira fase, recém-aprovada pela Anvisa, será avaliada a segurança do medicamento. Só depois será possível medir sua eficácia, dosagem ideal e eventuais efeitos adversos. Um ponto crítico é que os benefícios só foram observados quando o fármaco foi aplicado até 72 horas após a lesão.
Apesar disso, a Justiça já vem sendo acionada. Em dezembro de 2025, por ordem judicial, o administrador Diogo Brollo, de 35 anos, recebeu uma dose e relatou recuperação de sensibilidade e movimentos duas semanas depois. Ao menos dez decisões do Judiciário já determinaram o acesso ao medicamento experimental.
Em um misto de cautela e esperança, a história da polilaminina ainda está sendo escrita. Entre relatos que impressionam e dados que ainda faltam, ela lembra que, na ciência, a expectativa não dispensa método — e que nem toda boa história está pronta para virar tratamento. Pelo menos, não por enquanto.
(*) Com informações da Revista Veja de 16/01/2026