Alvoradas, Samba e Sabiá

bsbcapitalPor ,23/02/2020 às 18:07, Atualizado em 23/02/2020 às 18:07

A escolha da música não foi ao acaso: JK sofria críticas diárias de toda espécie por causa da construção de Brasília

Por Eduardo Monteiro *

“Falam de mim, mas eu não ligo, todo mundo sabe que eu sempre fui amigo…” Caxiné começa a entoar, sob o olhar atento de JK. Os presentes ao grande evento, que estavam mais próximos, cessaram imediatamente a conversa, aproximaram-se e com atenção total ouviram a melodia de Noel prosseguir: “Um rapaz como eu não merece essa ingratidão. Falam de mim, falam de mim, mas quem fala não tem razão…” Ao final, JK em lágrimas abraçou Caxiné e agradeceu, sob os aplausos que tomaram conta do imenso salão.

Evidente que falamos não de Noel Rosa, o Poeta da Vila, mas de Noel Rosa de Oliveira, grande compositor e intérprete salgueirense, autor desse clássico da MPB, ao lado de Aníbal Silva e Éden Silva. A escolha da música não foi ao acaso: JK sofria críticas diárias de toda espécie por causa da construção de Brasília. Esse evento aconteceu na noite do dia 12 de setembro de 1959, quase oito meses antes da inauguração de Brasília, no Palácio da Alvorada, durante as comemorações dos 57 anos do então presidente da República.

A emoção de JK com o gesto solidário foi tanta que contagiou aquela gente simples, aproximadamente 40 pessoas, componentes da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, campeões do desfile daquele ano com o lendário enredo – que extasiou e tornou Fernando Pamplona salgueirense –, “Viagens pitorescas ao Brasil ou Exaltação a Debret” de Djalma Sabiá e Duduca. 

Uma história que emociona até hoje o grande baluarte, autor do lendário samba Chico Rei e ex-presidente do Salgueiro Djalma Sabiá, que conta com orgulho as façanhas daquela comitiva de sambistas que ao visitarem Brasília a convite da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, ainda no Rio de Janeiro, ‘plantaram a semente’ do samba em terras vermelhas do Planalto Central. 

Aos 94 anos recém-completados, no último dia 8 de janeiro, seu Djalma é o único fundador do Salgueiro ainda vivo. Em entrevista exclusiva ao programa de rádio Skindô Brasil, seu Djalma narrou com precisão e detalhamento impressionantes os fatos daquele sábado inesquecível: “Fomos recebidos ainda de dia no canteiro de obras por JK, Niemayer e os candangos em clima de muita festa. E eles gritavam: ‘Vocês são os primeiros, são pioneiros também!’.  Se o samba não foi o primeiro ritmo a pisar oficialmente em Brasília, foi, sem dúvida, o que mais emocionou a Nova Capital. E, simbolicamente, marca o início da história do Samba e do Carnaval no DF.

Na manhã daquele mesmo glorioso sábado, de mansinho, quase anônimo, nascia o Lago Paranoá, assim como fez Caxiné, integrante do Salgueiro que iniciou de forma quase despretensiosa a canção oferecida a JK… O samba agradou, fez sucesso e cresceu. O Lago hoje é um gigante. JK continuou com sua luta e suas realizações, pouco se importando com o que falavam dele. 

Falam de mim, mas eu não ligo… Ligo sim, para a falta de respeito como é   tratado o nosso Carnaval. Queremos mais alvoradas, sambas e Sabiás em Brasília.

*Jornalista e produtor cultural

Deixe um comentário

Rolar para cima