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Brasil

A astúcia do vírus; as delícias e as doçuras da vida

  • Redação
  • 22/12/2021
  • 05:42

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vírus

Esse vírus é muito sinistro. Astucioso, parece que possui mecanismos inteligíveis superiores ao Q.I de certos humanos. Primeiro, ele pega carona em aviões pelo mundo. Aos poucos, espalha-se por meio de espirros, tosses, fluídos, e logo começa a frequentar ônibus, metrôs, festas, baladas, restaurantes. Desenfreado, provoca massacres em favelas e em bairros inteiros das periferias, bem ao estilo “eu quero que pobre se exploda”, bordão do deputado corrupto, personagem de Chico Anysio. 

É capcioso, dizia Márcia, minha comadre, depois de se livrar dele e contar a todos que, até hoje, não sabe como pegou covid-19 porque quase não saía de casa e andava de máscara o tempo todo. Pelo seu raciocínio, o infiltrado é instruído em estratégia complexa, pois movimenta-se com planejamento e seus ataques são em ondas: antes que uma acabe, ele começa outra, sem tréguas, com suas variantes Alfa, Beta, Gama, Delta, Ômicron… E o que vem mais por por aí? De dar inveja a Sun Tzu, autor do célebre livro de ensinamentos “A Arte da Guerra”, escrito lá pelo ano 500 a.C.

O vírus sabe onde pisa, ou, melhor, flutua, a sugar miolos de negacionistas, messianistas e apocalípticos. Adora os que lhe chamam, carinhosamente, de “gripezinha”. E se multiplica de orgulho quando o tratam como “a ira de Deus”, comportamento presente desde os anos 1350, durante a devastadora peste negra da supersticiosa idade média. 

Não pare

Você que está lendo este texto e acha engraçado ou inverossímil, não pare. Márcia contou-me: muitas de suas amigas disseram que não vão tomar vacinas. Por que, no mínimo, irão causar câncer, sem falar que os vacinados poderão ter implantado um “nanochip de geolocalização” no corpo.  

Fiquei curiosa: quer dizer que seremos uma espécie de mapa ambulante vigiado? Difícil de compreender. Márcia disse que não sabia, mas era certo que esse pacote estava sendo entregue a muita gente, embrulhado com a marca do fim dos tempos: a de que Jesus está voltando. E que chegou a hora de separar o joio do trigo! 

Eu não quis comentar. Percebi que minha velha comadre já tinha sido abduzida pelo povo santo, o qual prefere morrer nos braços de Cristo do que viver sob o manto do capiroto transfigurado em forma de vacinas capazes de aleijar e adoecer pessoas com Aids e outras doenças terríveis, a levá-las a arder no fogo eterno do inferno, principalmente se o antídoto vier da China “comunista”…

Agora me digam: esse vírus, que já matou mais de 5 milhões de pessoas no mundo e 600 mil no Brasil, é ou não é inteligente?

Bem, saí daquela nebulosa conversa e fui à feira espairecer. Nesses tempos, é quase uma praia. Céu azul, brisa fresca, água de coco. Só falta o mar, mas nada é perfeito. À minha frente: cana caiana cortada em pedacinhos, rodelas de abacaxis espirituais de tão doces, cajus suculentos, uvas e lichias explodindo na boca, e folhagens verdinhas a perder de vista. 

O que quero é estar viva e livre para aproveitar todas as delícias e doçuras ao meu alcance.

(*) Jornalista e escritora

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