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Uma ao lado da outra

  • Redação
  • 02/11/2015
  • 20:19

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Mario Pontes

 

RIO – Na manhã de sexta-feira passada, dia 22, o Sol me chamou para sair e fazer uma caminhada pelas ruas do bairro. Não demorou muito, tive a atenção desviada para a vistosa inscrição no vidro traseiro de um automóvel:

Bíblia sim!

Constituição não!

Pensei: não há mais ambiguidade no que diz ou escreve a turma da exclusão. As exclamações deixam claro que eles não pensam mais na Bíblia como um livro que convida à fraternidade, amor ao próximo, paz entre os homens. Para eles, a Bíblia é um instrumento de política e poder.

Desde seus capítulos de abertura, a história das civilizações deixa à mostra os ingredientes que fervem na panela interior do espadachim da exclusão: desprezo pelo que não se parece com ele, ódio pelo que não reza pela sua cartilha. Ao longo dos séculos ele é personagem ativo de uma crônica escrita com rios de sangue, membros dilacerados pela tortura, corpos queimados vivos em praça pública.

O principal artigo de fé do excludente é a rejeição de tudo que se proponha a incluir. Daí seu ódio às Constituições democráticas, que acolhem o princípio da igualdade e criam mecanismos destinados a enfraquecer as barreiras da falsa superioridade.

Naquela mesma noite de sexta, 22, fiz algo que contraria meus hábitos. Permaneci horas diante da televisão, assistindo a festa de abertura dos Jogos Mundiais de Povos Indígenas, em Palmas, capital do Tocantins. Um pouco para não perder aquela rara mostra de diversidade humana. Mas também como uma forma silenciosa de solidariedade aos sobreviventes de povos que durante séculos tiveram seus territórios invadidos, seus bens roubados, suas vidas sistematicamente destruídas: às vezes em nome da civilização; e, em muitas ocasiões, para imposição de crenças religiosas estranhas às deles.

Terminada a cerimônia, retirei da estante de livros dedicados à política meu gasto exemplar da Constituição Brasileira e o transferi – provisoriamente – para a dos livros sobre druidismo, xamanismo, hinduísmo, budismo, taoísmo, cristianismo, islamismo, protestantismo… Acomodei-o ao lado da Bíblia, na bela tradução alemã de Martinho Lutero. Que, aliás, como ocorre em todas versões não se limita a registrar  mandamentos religiosos, mas abre espaço para a sabedoria dos mitos e lendas, bem como para a beleza de poemas que expressam a alegria de viver e a satisfação decorrente do exercício do amor pelo Outro.

 

 

 

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