Um vídeo viral do Conselho Norueguês do Consumidor (NCC) destaca a crescente preocupação com a deterioração da qualidade nas principais plataformas digitais. Nele, um autoproclamado ‘profissional de enshitification’ demonstra, de forma provocativa, como ele adiciona janelas pop-up a diversos sites, programa intervalos publicitários em vídeos do YouTube e instala atualizações incômodas. O vídeo, que já ultrapassou milhões de visualizações, faz parte de uma campanha global que alerta para a ‘enshitification’ — um fenômeno que se refere à degradação de serviços online que eram antes fáceis e agradáveis de usar.
Em resposta, mais de 70 organizações de defesa dos direitos dos consumidores, incluindo grupos dos Estados Unidos, União Europeia e Noruega, uniram forças e enviaram cartas a autoridades em mais de 14 países, solicitando uma aplicação mais rigorosa das regras contra a ‘enshitification’. ‘Podemos ter um mundo digital melhor’, é o que se lê numa carta enviada em fevereiro pelo NCC a representantes da UE.
O termo ‘enshitification’, criado por Cory Doctorow, descreve como plataformas digitais que inicialmente oferecem boas experiências aos usuários começam a explorá-los para melhorar as condições para seus clientes empresariais. Isso resulta em um cenário onde um pequeno número de plataformas submete os usuários a uma enxurrada de publicidade, bloqueios de pagamento ou a necessidade de subscrições para funcionalidades que outrora eram gratuitas.
O relatório do NCC menciona o Facebook como um exemplo claro dessa tendência, indicando que a plataforma desviou-se de seu objetivo original — conectar amigos e familiares — para priorizar conteúdos promovidos e anúncios, numa clara tentativa de aumentar os lucros. A ‘enshitification’ é mais facilmente aplicada em produtos digitais, pois podem ser alterados de maneiras impossíveis em produtos físicos. Embora as plataformas não piorem intencionalmente a experiência do usuário, quando se veem diante da escolha entre aprimorar o serviço ou monetizar, acabam priorizando os lucros.
Nos primórdios das redes sociais, a intensa concorrência forçava as plataformas a atender simultaneamente às necessidades de usuários, criadores e anunciantes. Com o tempo, fusões e aquisições concentraram o mercado, diminuindo a pressão competitiva e, consequentemente, afetando a qualidade das experiências oferecidas.