Berenice Darc (*)
O Dia Internacional da Mulher não pode ser tratado apenas como uma data simbólica. Mais do que um dia de memória e luta das mulheres por direitos, como o fim da escala 6X1 na jornada de trabalho, a data precisa ser um momento de denúncia e mobilização diante de uma realidade alarmante: o Brasil vive uma pandemia de feminicídios.
A cada 24 horas, quatro mulheres são assassinadas por causa de gênero. Essa tragédia cotidiana exige que o crime seja reconhecido pelos poderes públicos como uma pandemia social urgente, que demanda respostas firmes, políticas públicas estruturadas e ações permanentes de prevenção.
Dados divulgados na quarta-feira (4) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) comprovam a gravidade do problema. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número da última década, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde que o crime foi tipificado na legislação brasileira, em 2015, mais de 13,7 mil mulheres foram vítimas de feminicídio. Não são apenas estatísticas: são vidas interrompidas, famílias devastadas e comunidades marcadas pela violência.
O estudo mostra que o feminicídio está profundamente ligado às desigualdades sociais e raciais: 62,6% das vítimas são mulheres negras. Na maioria dos casos, o agressor é alguém próximo: seis em cada dez feminicídios são cometidos pelo companheiro da vítima e dois em cada dez por ex-companheiros que não aceitam o fim da relação. Isso revela que a violência contra a mulher ocorre dentro de casa, no espaço que deveria representar proteção, e está ligada a estruturas históricas de machismo, racismo e desigualdade.
No entanto, o enfrentamento do feminicídio exige não apenas medidas de segurança e justiça, mas também políticas estruturais de educação e prevenção. A escola tem um papel estratégico nessa transformação social. É na escola que podemos desenvolver ações pedagógicas que promovam a igualdade de gênero, combatam o racismo e enfrentem todas as formas de violência.
A educação pode formar novas gerações baseadas no respeito, na valorização da vida e na convivência democrática, contribuindo para romper ciclos de violência que atingem mulheres, crianças, adolescentes e pessoas LGBTQIAPN+ e vítimas de racismo.
Iniciativas recentes do governo federal apontam caminhos importantes. No âmbito do Pacto Brasil contra o Feminicídio, os Ministérios das Mulheres e da Educação anunciaram ações conjuntas e estratégicas para fortalecer a prevenção da violência de gênero no ambiente educacional. Dentre elas, o Protocolo Nacional de Prevenção, Acolhimento e Enfrentamento da Violência contra as Mulheres nas universidades públicas e institutos federais.
Esperamos que o Governo do Distrito Federal siga essa orientação e adote o pacto como referência para suas políticas públicas, a fim contribuir para que deixemos de assistir, de forma passiva, à morte de mulheres em nossa cidade.
O Sinpro é um dos sindicatos pioneiros na criação de uma Secretaria de Mulheres em sua estrutura, que desenvolve ações de formação e, além do atendimento jurídico às vítimas de violência, oferece à subsídios pedagógicos para a elaboração de projetos educativos voltados ao enfrentamento da violência contra a mulher no ambiente escolar. A iniciativa reforça o papel da educação pública e dos(as) educadores(as) na construção de uma cultura de respeito, igualdade e defesa da vida das mulheres.
(*) Coordenadora da Secretaria de Mulheres do Sinpro-DF, secretária de Relações de Gênero da CNTE e dirigente da UBM-DF