Júlio Pontes
No último dia 15 de fevereiro, a oposição a Lula ganhou um presente da Acadêmicos de Niterói, em pleno carnaval, período tradicionalmente de pouco engajamento nas redes sociais de políticos. A escola de samba, na teoria, usou a história do atual presidente como inspiração para seu samba enredo. Na prática, o desfile teve mais provocações a adversários políticos, como Jair Bolsonaro e Michel Temer, do que exaltação à história do homenageado.
As cutucadas foram notadas pela comissão julgadora e a Niterói foi rebaixada para a “segunda divisão”. O resultado era esperado. Afinal, é comum que escolas recém-chegadas ao grupo especial retornem à Série Ouro no ano seguinte. É normal como um time de menor investimento que chega à primeira divisão do Campeonato Brasileiro de futebol e, no ano seguinte, volta à série B.
Apesar do mau desempenho da Niterói, quem mais perdeu com o carnaval foi Lula. A ressaca não acabou no proclamar das notas, na Quarta-Feira de Cinzas. A oposição acionará a justiça, com alegações de campanha antecipada na Marquês de Sapucaí. Há uma semana, escrevi, neste mesmo espaço, os motivos (controversos, é verdade). Porém, analiso este episódio no âmbito da comunicação, e não jurídico.
Foto: Divulgação/ @emerson_pereira_vieira
EFEITO REBOTE – Os dados da plataforma Alliatus mostram que, na semana do carnaval, nenhum dos 10 posts mais engajados dos presidenciáveis foi de Lula. Em contrapartida, cinco foram de nomes da direita ressaltando o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói. Além disso, uma campanha em prol das “famílias conservadoras”, satirizadas no desfile, virou conteúdo para todos os políticos de direita do país.
O efeito rebote ficou ainda mais evidente após relatório de Panorama Digital da Quaest, obtido pelo Brasília Capital. O mineiro Romeu Zema (Novo) foi o governador com maior “popularidade digital” nos últimos 30 dias, segundo a consultoria. Ele postou dez vídeos sobre o desfile de carnaval e superou o paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), que sempre liderou o ranking – até mesmo por governar o maior estado brasileiro.
Zema também assumiu a liderança do ranking de menções aos governadores, com 28% do total. Segundo o relatório, “Zema assumiu a liderança impulsionado por estratégia de saturação de conteúdo sobre o desfile da Acadêmicos de Niterói”.
Ainda de acordo com a Quaest, o “fenômeno demonstra uma alta eficiência na dimensão de Mobilização, onde o conteúdo principal serviu para pautar a audiência em temas mais densos e estratégicos, otimizando o alcance global da conta”.
Vale ressaltar que a primeira análise deste autor sobre o tema, publicada ainda em 16 de fevereiro, dava conta do risco que Lula corria, com o já imaginado rebaixamento da Acadêmicos de Niterói.
Por fim, os números deixam claro que, apesar do título da Viradouro, o maior vencedor do carnaval do Rio de Janeiro foi o governador de Minas Gerais.