Tácido Rodrigues
A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia e à Coreia do Sul deve render R$ 330 bilhões em investimentos e parcerias para o Brasil, segundo projeção do presidente da ApexBrasil, Jorge Viana. A maioria dos recursos, vindos de empresários e governos asiáticos, inclui projetos em infraestrutura, energia, tecnologia e indústria, reforçando a estratégia comercial de reduzir a dependência econômica da China.
Na Coreia do Sul, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, firmou acordos estratégicos para ampliar a produção nacional de tecnologias e medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS). Durante o Encontro Empresarial Brasil–Coreia do Sul, foram assinadas três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) voltadas aos fármacos bevacizumabe, eculizumabe e aflibercepte (remédios utilizados no tratamento de diversos tipos de câncer e degeneração macular), com transferência de tecnologia e fabricação no país. Um investimento estimado em R$ 1,1 bilhão no primeiro ano.
A iniciativa fortalece a autonomia produtiva, reduz riscos de desabastecimento e amplia o acesso a terapias de alto custo. “As parcerias representam produção local, fortalecimento da base industrial e redução de vulnerabilidades do sistema de saúde”, afirmou Padilha.
A agenda também incluiu memorando em saúde entre os dois países e seis novos acordos para produção conjunta de tecnologias. A Fiocruz ampliou cooperação com as empresas sul-coreanas Optolane, GenBody e Green Cross para desenvolver testes diagnósticos avançados, inclusive dispositivos portáteis que permitem a realização de exames clínicos rápidos no próprio local de atendimento ao paciente, sem necessidade de enviar a amostra para um laboratório central, para doenças como dengue, malária e tuberculose.
NOVOS MERCADOS — O agronegócio também entrou no pacote de negociações, com ampliação do intercâmbio técnico e institucional focado em ciência, tecnologia, agricultura digital, segurança alimentar e cadeias de abastecimento. “Esses acordos abrem novas oportunidades para os produtos brasileiros e fortalecem nossa presença na Ásia”, pontuou o ministro Carlos Fávaro.
Além dos memorandos assinados, o governo apresentou projetos nas áreas espacial, industrial e tecnológica para atrair capital estrangeiro e estimular cadeias produtivas no Brasil. A missão ocorre em um momento em que Brasília busca diversificar parceiros comerciais e diminuir a concentração das exportações em poucos destinos.
Reaproximação com a Índia
A passagem pela Índia seguiu a mesma linha e serviu também para uma reaproximação na relação bilateral, resultado de uma agenda que incluiu mais de 300 empresários e 12 ministros. Durante quatro dias em Nova Déli, foram assinados 11 acordos governamentais e 10 entre empresas brasileiras e indianas em setores como minerais críticos, saúde, tecnologia e inovação.
Lula descreveu a visita como “o marco de uma nova relação entre Brasil e Índia” e destacou que os governos se comprometeram a aquecer o comércio de bens, serviços e investimentos. A meta bilateral, atualmente em cerca de US$ 15 bilhões, foi colocada em discussão para alcançar patamares maiores até 2030.
Representantes de grandes grupos empresariais indianos anunciaram investimentos industriais no Brasil, incluindo projetos em mineração, infraestrutura portuária, e parcerias com empresas brasileiras em produção de jatos e complexos de minério de ferro.
Além de tratar de comércio e investimentos, Lula e o primeiro-ministro Narendra Modi reforçaram temas geopolíticos e estratégicos, como transformação digital, inteligência artificial e cooperação em minerais críticos, que são essenciais para cadeias globais de suprimentos.