Cecília Garcia (*)
Em 5 de dezembro de 2013, o mundo foi avisado da morte de Nelson Mandela, aos 95 anos. Mas, para além da perda do grande líder sul-africano, uma parcela considerável da população foi pega de surpresa. Muitos tinham a memória vívida de que Mandela havia morrido nos anos 1980, durante o período em que esteve preso.
Essas e outras memórias falsas, quando experienciadas coletivamente, recebem o nome de Efeito Mandela. O que pode parecer uma “falha na matrix” é, na verdade, um fenômeno bem documentado pela ciência. A ideia básica é a de que a repetição reforça a familiaridade da pessoa com uma informação e essa familiaridade leva a uma sensação de verdade.
A pesquisadora do departamento de psicologia e desenvolvimento humano da Universidade Vanderbilt, Lisa Fazio, publicou uma pesquisa que tinha como foco justamente essa questão: a repetição de uma informação pode aumentar a crença em afirmações falsas? A resposta foi sim. E não apenas isso. O fenômeno pode ocorrer mesmo quando a afirmação contradiz o conhecimento prévio da pessoa. Ou seja, conhecer um assunto não protege contra os efeitos da verdade ilusória.
As falsas memórias compartilhadas socialmente podem ocorrer em diversas situações, como em informações relativas a eventos históricos e falas de filmes. Muitas pessoas que eram crianças ou adolescentes em 11 de setembro de 2001 acreditam firmemente que a queda das Torres Gêmeas interrompeu a exibição de um episódio do desenho Dragon Ball Z, na Rede Globo. Contudo, a emissora já confirmou que, no dia em questão, o programa não foi ao ar.
Outro exemplo clássico de Efeito Mandela está em um dos filmes mais assistidos da Disney – Branca de Neve e os Sete Anões. Pode parecer estranho, mas a rainha má nunca disse a frase “espelho, espelho meu”. No filme de 1937, a madrasta da princesa fala: “Mágico espelho meu, quem é mais bela do que eu?”.
Se ainda não está convencido sobre a existência do efeito, responda à pergunta: quantas medalhas de ouro olímpico a brasileira Daiane dos Santos possui? Se sua resposta foi nenhuma, você conseguiu passar ileso a essa falsa memória compartilhada por muitos brasileiros. Na verdade, a ginasta nunca subiu ao pódio em uma Olimpíada, mas colecionou nove medalhas de ouro na Copa Mundial da modalidade.
Situações que são lembradas coletivamente, mas que nunca aconteceram, fazem parte do nosso repertório social. Por isso, na dúvida entre realidade e ilusão, é sempre bom pesquisar sobre a veracidade de uma informação.
(*) Jornalista