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Esporte

O baile da resistência

Com a coragem de quem não se cala, Vini Jr. transforma dor em denúncia e enfrenta o racismo com dança em gramados europe

  • Tácido Rodrigues
  • 19/02/2026
  • 12:11

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Foto: Reprodução/Instagram

Tácido Rodrigues

O que deveria ser a celebração de um recorde histórico para o futebol brasileiro transformou-se em mais um capítulo sombrio na carreira de Vinícius Júnior, de 25 anos. Após marcar o gol da vitória por 1 a 0 do Real Madrid sobre o Benfica, no Estádio da Luz, na terça (17), e se tornar, com 31 gols, o segundo maior artilheiro brasileiro na Liga dos Campeões da Europa, atrás de apenas de Neymar (43), o ex-atacante do Flamengo denunciou ter sido chamado de “mono” (macaco, em espanhol) pelo argentino Gianluca Prestianni. 

O episódio, que acionou o protocolo antirracismo da UEFA e paralisou a partida por dez minutos, reafirma a perseguição sistemática enfrentada pelo brasileiro nos gramados europeus, onde seu talento e suas comemorações têm sido usados como pretexto para ofensas racistas por adversários e torcedores rivais.

REVOLTA — O relógio marcava 5 minutos do segundo tempo quando Vini Jr. balançou as redes, com um golaço no ângulo do arqueiro Trubin. Ao celebrar com sua tradicional dança próximo à bandeira de escanteio, o clima esquentou. Segundo relatos confirmados por companheiros de equipe, Prestianni aproximou-se do brasileiro cobrindo a boca com a camisa para evitar a leitura labial e proferiu ofensas racistas. O árbitro francês François Letexier, embora tenha paralisado a partida, gerou revolta ao punir Vini Jr. com cartão amarelo pela comemoração, enquanto o agressor não foi advertido.

Mesmo diante da gravidade do caso, o técnico do Benfica, José Mourinho, conhecido pelo perfil provocador, preferiu culpar a vítima e minimizou a denúncia de racismo. “Ele deveria comemorar com os companheiros e não se meter com as 60 mil pessoas neste estádio”, afirmou Mourinho, sugerindo que o comportamento de Vini Jr. Provocou a situação.

APOIO — A reação da comunidade do futebol, ao contrário da de Mourinho, foi de apoio irrestrito ao camisa 7 do Real Madrid e da Seleção Brasileira. No canal CBS Sports, o ex-jogador e atual comentarista Thierry Henry, campeão do Mundo pela França em 1998, criticou duramente a UEFA por permitir que o debate seja desviado para a “etiqueta” da dança enquanto o racismo permanece impune. 

No X e em seu podcast, o ex-zagueiro inglês Rio Ferdinand compartilhou vídeos de ofensas vindas da arquibancada, disparando que “o sistema falha com Vini ao focar na coreografia em vez do crime do agressor”. O brasileiro Luisão, ídolo do Benfica, declarou sentir “profunda vergonha” da postura do clube e de Mourinho. Já Wayne Rooney, em coluna publicada no jornal britânico The Times, argumentou que “o racismo é uma tentativa deliberada de desestabilizar o melhor jogador do mundo”.

INDIGNAÇÃO — Camisa 10 do Real, o francês Kylian Mbappé revelou que os companheiros de time consideraram abandonar o gramado após os insultos. “Ele [Prestianni] disse cinco vezes que o Vini era um macaco. É inaceitável. Alguém que se comporta assim não merece jogar a maior competição do mundo”, afirmou. Mbappé foi flagrado pelas câmeras gritando com o adversário: “Você é um racista do caralho!”.

A Fifa, em pronunciamento assinado pelo presidente Gianni Infantino, reiterou que “não há lugar para racismo no futebol” e que o protocolo de três etapas deve ser seguido com rigor absoluto, prometendo sanções globais caso o crime seja comprovado. 

A Uefa, por sua vez, confirmou a abertura de um processo disciplinar e a nomeação de um inspetor para investigar os insultos de Prestianni e o comportamento da torcida no Estádio da Luz, ressaltando que uma das novas punições é a possibilidade de banir o atleta de competições europeias.

A Confederação Brasileira de Futebol emitiu comunicado em apoio a Vini Jr., classificando os ataques como “abjetos” e exigindo medidas concretas. “A CBF não aceitará que o maior ídolo do futebol brasileiro atual continue sendo alvo de ódio em solo europeu sem que haja consequências severas para os agressores e para as instituições que os protegem”.

Após sofrer mais uma vez com injúrias raciais na Europa, Vini Jr. desabafou nas redes sociais. “Racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam colocar a camisa na boca para demonstrar como são fracos. Nada do que aconteceu hoje é novidade na minha vida, mas é necessário falar. Fui punido com amarelo por comemorar um gol, enquanto do outro lado um protocolo mal executado de nada serviu”.

NEGATIVA — O meia argentino negou ter hostilizado o brasileiro. “Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas contra Vinícius Jr., que infelizmente interpretou mal o que pensou ter ouvido. Nunca fui racista com ninguém e lamento as ameaças que recebi de jogadores do Real Madrid”. O clube português saiu em defesa de Prestianni: “O Sport Lisboa e Benfica reitera que apoia e acredita plenamente na versão apresentada por Gianluca Prestianni, cuja conduta ao serviço do clube sempre foi pautada pelo respeito pelos adversários, pelas instituições e pelos princípios que definem a identidade benfiquista”. O Benfica ganhou projeção mundial graças ao moçambicano Eusébio da Silva Ferreira, o “Pantera Negra”, nascido em 1942 na então colônia portuguesa.

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