Caroline Romeiro (*)
Dietas da moda são padrões alimentares que ganham popularidade rápida, geralmente impulsionados por celebridades, influenciadores ou promessas simplistas de saúde e emagrecimento. Em comum, elas costumam apresentar restrições exageradas, exclusões de grupos alimentares ou justificativas pouco sustentadas por evidências científicas.
Embora algumas possam conter elementos positivos, o risco está na generalização — o que funciona para uma pessoa, em um contexto específico, não pode ser automaticamente aplicado à população, muito menos a crianças em fase de crescimento e desenvolvimento.
Recentemente, chamou atenção a repercussão de uma proposta relacionada à chamada “dieta da selva” no contexto da alimentação escolar, impulsionada por um influenciador digital e mencionada por um vereador na Bahia com a intenção de protocolar um projeto de lei sobre o tema. Situações como essa evidenciam um fenômeno preocupante: a tentativa de transformar modismos alimentares em políticas públicas sem o devido respaldo técnico-científico.
A alimentação escolar não pode ser conduzida por tendências ou opiniões pessoais, pois envolve saúde coletiva, segurança alimentar e o direito humano à alimentação adequada.
No Brasil, existe uma referência sólida para orientar escolhas alimentares: o Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde. O documento valoriza alimentos in natura e minimamente processados, a cultura alimentar, o comer em companhia e a sustentabilidade, oferecendo princípios amplamente reconhecidos internacionalmente.
Ele não propõe dietas restritivas ou modismos, mas, sim, um padrão alimentar equilibrado, adaptável às realidades regionais e sociais do país — exatamente o oposto das chamadas dietas da moda.
No âmbito da alimentação escolar, é fundamental lembrar que o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) estabelece que o nutricionista é o responsável técnico pela elaboração dos cardápios, com autonomia profissional garantida por lei.
Esse profissional considera aspectos nutricionais, culturais, orçamentários, agrícolas e pedagógicos para garantir refeições adequadas e seguras aos estudantes. Interferências externas baseadas em tendências ou pressões políticas podem comprometer a qualidade do programa e, principalmente, a saúde das crianças.
Em tempos de excesso de informação, fortalecer a ciência, o papel do nutricionista e as políticas públicas consolidadas é essencial para proteger o futuro alimentar das próximas gerações.
(*) Mestre em Nutrição Humana, coordenadora técnica do Conselho Federal de Nutrição (CFN) e docente da Universidade Católica de Brasília (UCB)