Tersandro Vilela (*)
Em um mundo cada vez mais mediado por tecnologia, o que parecia ficção científica vem deixando o terreno das séries e dos romances para ocupar o cotidiano de pessoas que desenvolvem envolvimento emocional e, em alguns casos, romântico com sistemas de inteligência artificial, tema explorado de forma emblemática no filme Her (2013).
Relatos publicados na imprensa internacional, estudos acadêmicos recentes e a observação de comunidades online indicam que parte dos usuários de chatbots e assistentes virtuais ultrapassa o uso instrumental dessas ferramentas e passa a estabelecer vínculos afetivos descritos como companheirismo profundo, apego emocional ou relação romântica.
Não se trata de um fenômeno majoritário nem plenamente quantificado, mas de um comportamento emergente que começa a ser mapeado por pesquisadores.
Um levantamento feito nos Estados Unidos pela Vantage Point Counseling Services, empresa privada da área de saúde mental, apontou que 28,16% dos participantes afirmaram já ter vivenciado algum tipo de relacionamento íntimo ou romântico com uma IA. O estudo foi baseado em um survey on-line com 1.012 adultos e não passou por revisão acadêmica por pares, razão pela qual seus resultados devem ser interpretados com cautela.
SOCIABILIDADE VIRTUAL – Em fóruns como o subreddit r/MyBoyfriendIsAI, usuários relatam relações prolongadas com chatbots aos quais atribuem identidade e personalidade próprias, incluindo rituais simbólicos de noivado e casamento.
Esses relatos, de caráter individual e não estatístico, chamaram a atenção da imprensa internacional. Em janeiro, a revista The Atlantic publicou reportagem baseada em entrevistas com participantes dessas comunidades, analisando o fenômeno sob a ótica cultural e psicológica.
A produção acadêmica começa a oferecer explicações para esse tipo de vínculo. Estudos indicam que sistemas capazes de memorizar informações pessoais, adaptar a linguagem e simular respostas empáticas ampliam a sensação de intimidade e reciprocidade, elementos centrais das relações humanas.
Pesquisas disponíveis na plataforma arXiv, que reúne trabalhos científicos ainda não necessariamente revisados por pares, identificam padrões de apego emocional e apontam riscos associados, como dependência afetiva e sofrimento psicológico.
DEBATE – Pesquisa divulgada em dezembro de 2025 pela CNN Brasil com usuários do aplicativo de relacionamentos Gleeden indicou que 60% dos entrevistados consideram que um envolvimento afetivo ou erótico com uma IA pode ser interpretado como traição em relações tradicionais.
Ao mesmo tempo, 83% afirmaram considerar impossível se apaixonar por uma máquina, dado que revela curiosidade, mas também forte ceticismo diante de vínculos que desafiam normas sociais consolidadas.
Se, por um lado, essas interações podem oferecer conforto emocional a pessoas em situação de solidão ou isolamento, por outro, levantam preocupações sobre substituição de relações humanas, vulnerabilidade emocional e impactos na saúde mental.
Trata-se de um novo formato legítimo de afeto ou de projeções emocionais mediadas por algoritmos? À medida que a tecnologia avança na simulação de empatia, diálogo e personalidade, a própria noção de amor passa a ser colocada em xeque, talvez menos vinculada ao corpo e mais à experiência subjetiva de conexão.
(*) Jornalista pós-graduado em Filosofia, especialista em Liderança: gestão, resultados e engajamento, e mestrando em Inovação, Comunicação e Economia Criativa