Caroline Romeiro (*)
O caso de um cirurgião-dentista de Cuiabá (MT) que publicou ataques a nutricionistas e comentários discriminatórios sobre pessoas obesas ou com sobrepeso, que ganhou repercussão esta semana, expõe dois problemas graves que têm se intensificado nas redes sociais: a desinformação em saúde e a banalização do desrespeito entre profissões.
Segundo a imprensa local, o Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso (CRO-MT) anunciou ‘suspensão cautelar por 30 dias’ e instauração de procedimento ético, apontando que as falas extrapolariam limites técnicos e éticos e poderiam induzir a sociedade à desinformação.
Do ponto de vista do interesse público, o episódio também chama atenção para o exercício ilegal e a oferta irregular de “planos de emagrecimento”, “protocolos” e “orientações alimentares” por pessoas sem habilitação — prática que, conforme alerta publicado pelo Conselho Federal de Nutrição (CFN), em 30 de janeiro de 2026, pode caracterizar contravenção penal (art. 47 da Lei das Contravenções Penais) quando envolve atos privativos do nutricionista, como prescrição dietética e acompanhamento nutricional.
O CFN destaca, ainda, que a retórica de “dietas milagrosas” e promessas sem respaldo científico pode, em certas situações, ser discutida também sob a ótica do charlatanismo (art. 283 do Código Penal), quando há anúncio de “cura”, “tratamento” ou método “secreto/exclusivo” sem comprovação científica.
Há, porém, um segundo dano menos visível e igualmente importante: a gordofobia. Comentários que associam competência profissional ao corpo, ao peso ou à aparência reforçam estigmas que afastam pessoas do cuidado em saúde, pioram a relação com a alimentação e normalizam humilhações.
No Brasil, há debate legislativo para tipificar a discriminação por peso corporal (como a tramitação de propostas na Câmara dos Deputados), o que evidencia que o tema já é reconhecido como problema social relevante — ainda que a discussão jurídica esteja em evolução.
Em meio a esse cenário, vale reafirmar: o nutricionista é o profissional legalmente habilitado para avaliar necessidades individuais, interpretar sinais clínicos e contexto de vida, planejar condutas alimentares com base em evidências e acompanhar resultados com segurança — inclusive em situações complexas como doenças crônicas, gestação, infância, envelhecimento e transtornos da relação com a comida.
Valorizar a Nutrição é proteger a saúde coletiva. Significa defender que orientação alimentar não é “opinião” nem “palpite”, e que ética, respeito e trabalho interprofissional são condições mínimas para um cuidado em saúde que seja humano, efetivo e baseado em ciência.
(*) Mestre em Nutrição Humana, coordenadora técnica do Conselho Federal de Nutrição (CFN) e docente da Universidade Católica de Brasília (UCB)