Fabio Goes e Nathália Guimarães
A possível retirada da pista de skate da Praça Flautim, próxima à estação Concessionárias do metrô, em Águas Claras, mobiliza moradores e skatistas e reacende o temor de que a região repita o que ocorreu com a Praça do DI, em Taguatinga, onde a demolição de equipamentos esportivos resultou em abandono e insegurança.
O tema foi discutido em audiência pública no dia 28 de janeiro, convocada pelo administrador regional Gilvando Galdino. Em vídeo nas redes sociais, Galdino afirmou que a reunião buscou uma “solução definitiva” para um problema que só existe na cabeça dele. Segundo o administrador, as propostas foram registradas em ata e serão avaliadas, com possíveis encaminhamentos no Diário Oficial do DF.
CONVIVÊNCIA – Instalada há mais de 20 anos e prevista no projeto urbanístico de Águas Claras, a pista é alvo de reclamações de uma pequena parcela dos moradores de condomínios próximos por causa do barulho e dos horários de uso. Já os skatistas defendem o espaço como essencial para o lazer, o esporte e a convivência comunitária.
O estudante Luiz Fernando, de 15 anos, participou da audiência e criticou o posicionamento de Gilvando. “Quando ele fala de bem-estar, não liga para o bem-estar público, apenas para o privado dentro de seus próprio condomínios. Mas, enquanto eles podem ter o se divertir como querem, nós, como cidadãos, não podemos usufruir de um equipamento público. Para eles, nosso lazer é considerado baderna. Mas só queremos o direito de usufruir o que está na área pública”, criticou.
Luiz Fernando: “Quando ele (Gilvando) fala de bem-estar, não liga para o bem-estar público, apenas para o privado”. – Foto: Antônio Sabino/BsbCapital
Luiz Fernando também questiona a ausência de estudos técnicos. “O administrador disse que traria um laudo técnico com base na Lei do Silêncio, mas não mediram nem os decibéis da pista”, disse. Para o jovem, o espaço é patrimônio cultural da cidade e não atende apenas aos skatistas, mas a todas as pessoas que buscam um espaço de convivência.
Um exemplo é o aposentado Loi Barbosa de Oliveira, de 80 anos, que vê o espaço como ferramenta de inclusão social. “O skate traz crianças e jovens para as praças públicas. Quando morávamos em Taguatinga, meu filho frequentava a pista da Praça do DI e chegou a participar de concurso em Anápolis (GO), onde foi premiado”, recordou. Loi refuta a associação entre skate e marginalização: “Havia crianças da redondeza. Drogas existem em qualquer lugar. Mas não era o skate que trazia isso”.
Praça do DI: da alegria ao abandono
Em 2014, a pista de skate e o halfpipe da Praça do DI, em Taguatinga, foram demolidos na gestão do então administrador Antônio Sabino, no governo Agnelo Queiroz (PT), com a justificativa de combater usuários de drogas e moradores em situação de rua. A promessa era construir um novo complexo esportivo no Taguaparque, o que nunca se concretizou.
“A Praça do DI era vida. Era um espaço alegre, com gente de todos os lugares”, lembra a escritora e professora aposentada Valdirene Lucena, secretária da Rede Cidadã de Taguatinga. “Hoje, o local perdeu a função social, está depredado e inseguro”, lamenta.
O escritor Ismar Lemes, de 76 anos, reforça: “A praça é do povo. Não podemos destruir equipamentos públicos, como as pistas de skate, como vejo que pode acontecer em Águas Claras”. O sapateiro Frederico Ribeiro Generoso, de 36 anos, também lamenta: “Quando tinha skate, havia famílias e movimento. Hoje, há abandono, sujeira, moradores de rua e tráfico de drogas”.
Para moradores e frequentadores, o debate vai além do barulho: trata-se de definir se as praças públicas devem ser espaços vivos de convivência ou áreas esvaziadas, sem função social. A decisão sobre a pista da Praça Flautim pode indicar qual caminho Águas Claras pretende seguir.