Tersandro Vilela (*)
A cena se repete com pequenas variações, mas é facilmente reconhecível: um pão com olhos exagerados, um abacate indignado ou uma cebola animada surgem em vídeos curtos que circulam com força nas redes sociais, sobretudo no TikTok e no Instagram, transformando alimentos, objetos cotidianos e até partes do corpo humano em personagens que se dirigem diretamente ao usuário. O tom é quase sempre de reprimenda e abordagem que corrigem hábitos, apontam erros e prescrevem comportamentos, embalados por uma estética associada à animação infantil, que ajuda a explicar por que esse tipo de conteúdo chama atenção e se dissemina com rapidez.
Nada é casual. A popularização de ferramentas de inteligência artificial (IA) tornou esse tipo de produção simples e barata, ao mesmo tempo em que as plataformas passaram a privilegiar formatos capazes de capturar o olhar nos primeiros segundos. Rostos, ainda que artificiais, funcionam como gatilhos visuais, vozes mantêm o espectador retido e a ideia de que o próprio objeto fala cria uma sensação de proximidade que favorece o engajamento, mesmo quando o conteúdo oferecido é superficial.
O problema está justamente no conteúdo. Levantamentos jornalísticos do Aos Fatos indicam que muitas das orientações veiculadas nesses vídeos carecem de base técnica ou científica, sobretudo quando tratam de armazenamento de alimentos, preparo culinário ou cuidados com a saúde. As recomendações são apresentadas como regras gerais, sem fonte identificável, sem contextualização e sem distinção entre situações específicas, enquanto a estética simpática reduz a disposição do público para questionar o que está sendo dito.
Há também um empobrecimento do discurso informativo, perceptível na forma como esses vídeos se dirigem ao espectador adulto sem estabelecer diálogo ou oferecer explicações minimamente consistentes. Em lugar disso, adotam um tom corretivo e autoritário, que prescinde de nuance e contraditório. Apontam erros de comportamento como se fossem evidentes por si mesmos e, em temas sensíveis como alimentação, saúde e autocuidado, acabam reforçando uma pedagogia baseada no constrangimento e na obediência, não na compreensão informada ou na autonomia.
FATOR DE RISCO – Chama atenção, nesse contexto, a rapidez com que esse formato começa a se naturalizar como linguagem legítima de comunicação e até de educação nas plataformas digitais. A circulação de tutoriais que ensinam a produzir vídeos desse tipo sugere que a tendência tende a se expandir, inclusive entre marcas e em alcançar grandes públicos com pouco esforço. Quanto mais esse modelo se dissemina, mais difusa se torna a fronteira entre entretenimento, publicidade e informação em um ambiente já marcado por excesso de conteúdo e baixa mediação.
Não se trata, portanto, de nostalgia por um passado analógico nem de rejeição automática à IA como ferramenta de comunicação, mas de uma discussão editorial sobre responsabilidade na circulação da informação. Quando a busca por alcance e viralização se sobrepõe à apuração, à mediação humana e ao compromisso com a precisão, o ganho em cliques costuma vir acompanhado de perda em confiança. O resultado é um cenário em que a comida fala cada vez mais, enquanto a informação qualificada fala cada vez menos.