Orlando Pontes (*)
A invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro e da esposa dele, Cilia Flores, no sábado (3), representam o ataque mais agressivo de Washington a um país soberano desde a Segunda Guerra Mundial. Mas a direita brasileira preferiu ignorar esta agressão ao direito internacional e aproveitou para aprofundar a polarização contra a esquerda em ano eleitoral.
Comentários e “análises” de governadores, parlamentares e “especialistas” de direita inundaram as redes sociais nos últimos dias. Entre eles, o senador Izalci Lucas (PL-DF) e sua assessoria e o deputado distrital Thiago Manzoni (PL). Todos comemoravam a prisão do líder venezuelano e a suposta queda do regime chavista, “esquecendo-se” de que a vice Delcy Rodríguez, foi empossada no comando do governo.
Isto, é verdade, não significa a continuidade da falta de diálogo do governo de Caracas com Washington. No grupo de debates do Núcleo de Economistas da Fundação Perseu Abramo, majoritariamente de esquerda, ganhou destaque uma declaração de Delcy Rodríguez: “Convidamos o governo dos EUA a colaborar conosco em uma agenda de cooperação”.
A mensagem da presidente, dirigida a Trump, em nenhum momento condena o criminoso ataque dos EUA à Venezuela ou exige a libertação de Maduro. “Ela claramente aceitou as condições postas por Trump”, avalia um dos membros do grupo da Perseu Abramo.
Foto: Reprodução/Instagram
REI MORTO… – “Por isso, o norte-americano descartou a líder da oposição, Maria Corina Machado, e o candidato derrotado nas últimas eleições, Gonzalez Urrutia, pois nada melhor que Delcy para trazer consigo a colaboração da estrutura de poder chavista. Rei morto, rei posto”, diz outro economista.
Entre os integrantes do grupo, no entanto, existe a convicção de que “muita água ainda vai rolar por debaixo da ponte”. Trump já deixou claro que o secretário de Estado Marco Rubio está se entendendo com Delcy e “chutou o traseiro de Corina e Urrutia”. Ou seja, por ora, fica tudo como antes, mas sem Maduro, preso sob a acusação de ser traficante de cocaína.
E com a Venezuela voltando para área de influência dos EUA (que retomarão o controle do petróleo venezuelano) e se afastando gradativamente da Rússia e da China, como num passe de mágica, sem Maduro, todo o mal “desaparecerá”.
SUBMISSÃO – Evidentemente que, para o público interno, Delcy adotará outro discurso. Isto, para Trump, é muito cômodo. Afinal, não precisará se desgastar com novos ataques sangrentos contra o país e terá sob seu controle uma liderança submissa que, ao mesmo tempo, consegue manter a aparência populista-nacionalista do regime e de seu antecessor.
Delcy está seguindo a mesma linha tentada por Maduro: negociar. E o motivo é simples: numa guerra, o preço a ser pago pela Venezuela seria enorme. Portanto, é melhor negociar. O problema é que, para Maduro, as condições impostas por Trump sempre foram inaceitáveis. Basta ver o que está ocorrendo após a prisão do chavista: Trump se comporta como se estivesse governando a Venezuela, embora isso seja pura ficção. Mas é real que ele manipula Delcy.
Portanto, nunca houve espaço para negociação sem abrir mão de enormes parcelas da soberania. Este foi o problema enfrentado por Maduro, e segue sendo o maior problema para Delcy. Mas nada garante que Trump obterá êxito nessa tentativa de cooptação do chavismo para ser operador dos EUA na Venezuela. Afinal, a parte a ser cooptada seria majoritariamente da cúpula, gerando grande resistência nas bases.
Saiba +
Na avaliação da doutora em Relações Internacionais da PUC São Paulo Priscila Caneparo, a ação dos EUA abre um precedente perigoso nas Américas e coloca em xeque a ordem internacional construída no pós-guerra. “Isso é uma porta muito perigosa para que ocorram invasões em outros Estados latino-americanos, principalmente por questão de recursos naturais — lembrando que o Brasil é o segundo maior detentor de terras raras, depois da China”, alerta ela. “Invasões só podem ser justificadas pela perspectiva do direito internacional em duas premissas: a partir da autorização do Conselho de Segurança da ONU, que não foi o caso, ou se o Estado está em risco ante um terceiro Estado, que também não é o caso”, explica a especialista.
(*) Colaborou Júlio Miragaya