Caroline Romeiro (*)
Os Estados Unidos anunciaram, recentemente, uma reformulação de suas diretrizes alimentares, chamada de Real Food Pyramid, que rompe com o modelo clássico baseado no alto consumo de pães, massas e cereais.
A nova proposta desloca o foco para alimentos considerados “reais”, colocando proteínas, gorduras naturais e laticínios integrais na base da pirâmide, além de incentivar o consumo de frutas e hortaliças e reduzir a presença de grãos, especialmente os refinados.
O documento também traz recomendações quantitativas mais altas de proteína para adultos, defendendo uma alimentação mais densa em nutrientes e menos dependente de produtos industrializados.
Embora a mudança represente uma inflexão importante no histórico das políticas alimentares americanas, o discurso central não é exatamente uma novidade para quem acompanha o debate internacional em alimentação e nutrição.
A crítica ao excesso de carboidratos refinados, açúcares adicionados e ultraprocessados, associada ao aumento de doenças crônicas como obesidade e diabetes, já vinha sendo amplamente discutida na ciência.
Nesse sentido, a nova pirâmide americana reconhece, com muito atraso – antes tarde do que nunca! –, que padrões alimentares baseados em alimentos minimamente processados são mais favoráveis à saúde.
No Brasil, esse caminho já havia sido traçado em 2014, com a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, referência mundial em políticas públicas de alimentação.
O Guia brasileiro estabelece como princípio central a valorização dos alimentos in natura ou minimamente processados, o preparo das refeições em casa e a redução do consumo de ultraprocessados.
Diferentemente do modelo americano, o Guia não organiza a alimentação em pirâmides ou metas numéricas, mas propõe uma abordagem mais ampla, que considera a cultura alimentar, o convívio social, o ato de cozinhar e a autonomia das escolhas.
Ao comparar os dois documentos, fica evidente a convergência na defesa da comida de verdade e na crítica ao excesso de produtos industrializados.
A principal diferença está na forma de orientar a população: enquanto a proposta americana aposta em porções, hierarquias de nutrientes e visualizações gráficas, o Guia brasileiro aposta em educação alimentar, contexto social e sustentabilidade, sem demonizar grupos alimentares específicos.
No fim das contas, a mensagem que se fortalece é comum aos dois países: promover saúde passa, antes de tudo, por resgatar uma alimentação baseada em alimentos de verdade, preparados e consumidos com mais consciência.
(*) Mestre em Nutrição Humana, coordenadora técnica do Conselho Federal de Nutrição e docente de Nutrição da Universidade Católica de Brasília