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Internacional, Política

Chile aponta caminhos e alertas para as próximas eleições do Brasil

  • Redação
  • 14/11/2025
  • 14:45

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Foto: Cilio Netto

(*) Cilio Netto

O Chile vive neste domingo um clima que diz muito mais do que apenas o futuro político do país. As eleições presidenciais chilenas, marcadas por forte polarização e pelo avanço de discursos de “mão dura”, se transformaram em um espelho que o Brasil deveria observar com atenção. Os assuntos que dominam as ruas — segurança pública e a sensação crescente de perda de controle — se assemelham com os temas que a cada dia mais ganham força no debate político brasileiro. E o modo como o eleitor chileno responde a esse cenário pode antecipar movimentos semelhantes no Brasil.

Como observador internacional, vim acompanhar de perto esse movimento no país vizinho. No primeiro turno, a candidata de esquerda Jeannette Jara aparece na dianteira. Ela representa a continuidade do atual governo e tenta equilibrar uma agenda social com propostas de enfrentamento ao crime. Logo atrás, porém, surge um campo conservador, fragmentado, mas barulhento e em ascensão. José Antonio Kast, o nome mais conhecido da direita, aposta em um discurso conservador robusto, de valores tradicionais e políticas mais duras contra o crime e a imigração irregular. Johannes Kaiser, por sua vez, cresce com uma retórica ainda mais radical — um libertarismo extremo, que promete choque imediato contra imigrantes ilegais e organizações criminosas. Já Evelyn Matthei tenta ocupar um meio-termo, representando o centro tradicional chileno, mais pragmático e institucional.

Esse tabuleiro ajuda a entender um ponto comum na política latino-americana recente: a segurança pública voltou a ser o grande motor eleitoral. No Chile, onde o conservadorismo social é historicamente forte, o medo da criminalidade e o incômodo com a presença de imigrantes irregulares abriram espaço para propostas cada vez mais duras, capazes de reorganizar o mapa eleitoral. Para 63% dos chilenos a segurança é a principal preocupação. A direita chilena entendeu isso e fez da pauta criminal seu principal produto político. O resultado é um cenário em que o eleitor descontente busca respostas rápidas — ainda que elas venham acompanhadas de riscos

Para o Brasil, o alerta é claro. A disputa chilena mostra que a combinação entre insegurança crescente e descrença nas soluções tradicionais pode impulsionar agendas radicais. A ascensão de Kaiser, um nome que até pouco tempo circulava nas franjas do debate político, ilustra a velocidade com que discursos extremos podem ganhar tração quando a população sente que perdeu o controle sobre seu cotidiano. Esse é um fenômeno que também ronda o Brasil, onde a criminalidade já é usada por alguns como principal bandeira eleitoral.

Por outro lado, a liderança inicial de Jara também envia um recado importante ao campo progressista brasileiro: ignorar a pauta da segurança é abrir espaço para derrotas. A esquerda chilena só conseguiu se manter competitiva porque passou a tratar o tema com seriedade, apresentando propostas concretas e comunicando de forma mais firme. É uma lição direta para o Brasil, onde parte do eleitorado ainda associa a esquerda à leniência na área.

As eleições no Chile também revelam uma tendência preocupante: a normalização de discursos autoritários como solução rápida para problemas reais. Propostas de endurecimento extremo, ampliação de poderes extraordinários e medidas de expulsão em massa de imigrantes não estão mais restritas à retórica — elas viraram plataformas políticas competitivas. E a depender do resultado, poderão se transformar em política de Estado. Essa normalização, se replicada no Brasil, pode tensionar ainda mais um ambiente político já inflamado.

Independentemente do resultado final, o Chile está oferecendo ao Brasil uma prévia de como temas sensíveis — como segurança e soberania — podem reconfigurar o debate nacional.

O fato é que, mais do que escolher um presidente, o Chile está testando os limites da democracia latino-americana em tempos de medo e incerteza. E o Brasil, que vive dinâmicas parecidas, não pode ignorar os sinais. As urnas chilenas podem não definir nosso futuro — mas certamente ajudam a iluminá-lo.

(*) Jornalista e consultor político

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