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Geral

O vestido

  • Redação
  • 03/11/2021
  • 10:26

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Anna Ribeiro (*)

Dentro do guarda-roupa, dentro de uma caixa, dentro de um pequeno passado. Lá estão os vestidos de festa. O cheiro de roupa guardada denuncia o transcorrer do tempo. Ao olhar cada vestido vem à memória o evento e também como eu me sentia naquela noite. Memórias, sensações e muitas emoções revisitadas.

Terei um novo evento em breve. Este foi o motivo de revisitar o passado. Engraçado isso: um novo evento me levou a uma volta ao passado. Era dezembro, eu havia desenhado um vestido para o Réveillon que seria comemorado em um castelo. Lindo, clássico, atemporal. Ou seja, eu usaria muitas e muitas vezes. 

Mas os eventos não vieram, e ele ficou lá, aguardando o seu momento. Peguei o vestido com a incerteza típica das mulheres. Será que ainda me serve? Será que eu ainda entro neste vestido após tantos anos? Provei o vestido. Não era meu. Eu entrei no vestido, mas aquele vestido não era meu. Claro que não! Guardei-o, indignada.

Passaram-se alguns dias e comecei a entender que, na verdade, o vestido era lindo, clássico e atemporal. Mas eu era outra. Linda, clássica, porém temporal. Uma outra pessoa, outra mulher, com uma alma diferente e com anseios ainda mais diferentes. Eu cabia no vestido, mas ele não me cabia mais, entende?

Éramos como ex-amantes. Nos sabíamos íntimos, nos conhecíamos, mas não havia mais nenhum desejo. Um já não expressa o outro, não se desejam, não se pertencem. 

O que mais me assustou foi o fato de eu ter mudado tanto em apenas três anos. Tão pouco tempo para ser uma outra pessoa. A gente se busca e se constrói e se desconstrói e se renova o tempo todo. 

E por falar em mudança, não usarei vestido no próximo evento! Usarei calças! Caso eu não mude de ideia ou de alma até lá…

(*) Escritora

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