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colaboradores, Internacional

190 anos do roubo do Texas

EUA tomaram 55% do território mexicano, correspondente a 25% do território norte-americano

  • Júlio Miragaya
  • 20/04/2026
  • 12:03

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Foto: Freepik

Júlio Miragaya (*)

Ao assistirmos a arrogância e desfaçatez do imperialismo norte-americano, podemos nos perguntar quando tais características se desenvolveram naquele país, e certamente poderemos buscar suas raízes nas primeiras décadas daquela nação. Após a compra, em 1803, da vasta região da Louisiana de uma França envolta em guerras na Europa, os EUA, em 1819, já davam sinais claros do que estaria por fazer nos dois séculos seguintes, invadindo a península da Flórida, que fazia parte do Vice-Reino da Nova Espanha, precursora do Império Mexicano instituído em 1821.

Em outubro de 1835, fazendeiros norte-americanos (autodenominados colonos), que haviam migrado para o estado mexicano de Coahmila y Tejas, iniciaram uma rebelião contra o governo mexicano porque este queria cometer o “abuso” de cobrar impostos e fazer valer a lei do país, que desde 1829 proibia a escravidão, e os colonos vindos dos estados escravagistas do “Sul”, haviam levado alguns milhares de negros escravizados para o estado. 

Em 21 de abril de 1836, há 190 anos, os “colonos” organizados em milícias (com apoio do exército dos EUA) derrotaram o exército mexicano na Batalha de São Jacinto e impuseram a capitulação ao general e presidente mexicano López de Santa Anna, que assinou o Tratado de Velazco, reconhecendo a independência do Texas. Assim ficou por 8 anos, até novembro de 1844, quando sua anexação aos EUA foi aprovada pelo Congresso norte-americano e efetivada em fevereiro de 1845 pelo presidente James Polk, sob protestos do governo mexicano.

Mas havia um problema, o chamado “Compromisso de Missouri”, firmado em 1820 entre os 11 estados escravagistas e os 11 abolicionistas, que estabelecia a paridade nas representações no Senado, e que a admissão na União de um estado escravagista só poderia ocorrer se houvesse a admissão de um abolicionista, e vice-versa. Assim o Texas escravista foi admitido como estado em dezembro de 1845, junto com a Flórida, com o compromisso de criação dos estados de Iowa e Wiscousin, abolicionistas.

Mas o imperialismo não se deu por satisfeito. Logo que feita a anexação do Texas, os EUA passaram a exigir que a fronteira texana com o México não mais fosse o rio Nueces, mas que fosse estendida 240 Km para o sul, no rio Grande. Diante da recusa mexicana, Polk propôs a compra, mas ante nova recusa, determinou uma expedição militar ao sul do rio Nueces. Ante a expulsão dos invasores pelo exército mexicano, Polk declarou guerra ao México em 25 de abril de 1846, precisamente 10 anos depois da declaração da independência do México, há exatos 180 anos.

Foi uma guerra assimétrica que durou 2 anos. Em julho do mesmo ano, tropas norte-americanas ocuparam Los Angeles, na Califórnia mexicana, e em setembro de 1847 ocuparam a capital mexicana. Com o Tratado de Guadalupe Hidalgo imposto goela abaixo, o México “cedeu”, além dos 954 mil Km² do Texas, outros 1,36 milhão de Km², que somados aos 78 mil Km² de Gadsden (cedidos em 1853), totalizaram 2,39 milhões Km². 

No curso de 17 anos, os EUA tomaram nada menos que 55% do território mexicano, área maior que a soma dos territórios da França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, Espanha e Polônia. Corresponde a 25% do território dos EUA e compreende hoje os dois estados mais populosos do País (Califórnia e Texas), além do Arizona, Novo México, Nevada, Utah, a maior parte do Colorado e pequena parte dos estados de Oklahoma, Kansas e Wyoming, habitados hoje por 88 milhões de norte-americanos (26% da população nacional).

O curioso é que 40% dessa população (35 milhões) são identificados como hispânicos (imigrantes mexicanos e seus descendentes, assim como dos diversos países da América Latina, notadamente salvadorenhos, guatemaltecos, hondurenhos e colombianos), que somados aos 17 milhões de outras minorias (asiáticos, negros e indígenas), correspondem a 60% da população total. Parte dessa massa é a maior vítima da ação da ICE, a polícia anti-imigração.

 Após essa extorsão, os EUA ocuparam, em 1848, a maior parte do chamado Território do Oregon (em acordo com a Grã-Bretanha); compraram o Alasca da Rússia em 1867; roubaram o Havaí em 1893 e, após derrotarem a decadente Espanha numa curta guerra em 1898, tomaram Porto Rico, Cuba e Filipinas. No século XX o imperialismo norte-americano optou por expandir seus tentáculos por outros meios, como comércio, investimentos e influência cultural, sem nunca abdicar do porrete. Atualmente, em uma recaída, Trump fala em tomar a Groenlândia. 

Com tudo isso, como não dar razão à frase atribuída ao presidente-ditador Porfírio Díaz, que na verdade foi proferida pelo padre Carlos Heredia: “Pobre México, tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos!”.

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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